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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Cidade saudável

É sempre um risco, adjectivar uma realidade. Quase sempre, os rótulos tentam sintetizar o que na realidade não existe. Uma cidade saudável é o quê?  Porventura será um espaço urbano limpo, iluminado, seguro, florido. Um lugar construído para as pessoas e que não privilegie os veículos motorizados; que favorece o encontro e não se esvazia ao fim da tarde. Uma cidade saudável não pode ser um território dividido entre novos e velhos, que abandona os edifícios no seu centro histórico, ao mesmo tempo que facilita a construção de uma periferia sem identidade.

Dizer que uma cidade é saudável, é atribuir a um aglomerado construído, uma condição humana. Mas o que se entende por saúde, nos tempos que correm? Porque a cidade já foi de muitas outras gerações e no passado, para se ter saúde na cidade, talvez tenha sido fundamental a presença do hospital, a vinda dos médicos e dos enfermeiros, a criação de farmácias e o aparecimento de muitos outros recursos terapêuticos.

Hoje, falar de saúde vai muito para além dos recursos clínicos. Exige uma atitude responsável de todos os cidadãos, uma atitude preventiva, a procura de estilos de vida mais equilibrados. Menos sedentarismo, uma alimentação menos calórica, o contacto mais directo com a natureza, a prática de exercício e a gestão do stress, são fundamentais na manutenção de uma vida saudável.

Dizer que uma cidade é saudável significa dar resposta às necessidades de saúde dos seus habitantes, e isso não significa apenas promover actividades de rua, onde seja possível medir a tensão ou avaliar a diabetes numa tenda montada para o efeito.

Uma cidade saudável tem de cuidar dos espaços para a prática de exercício físico, jogar à bola ou brincar; tem de promover actividades e favorecer uma relação próxima e despoluída com a natureza e o espaço público.

O parque urbano em Ponta Delgada é uma área verde que pode e deve representar um espaço de abertura e equilíbrio, numa cidade que cresce de forma desordenada e esquece o seu centro histórico. Pena é que a história natural destas ilhas não possa ser aprendida neste lugar, com recurso a um viveiro de plantas endémicas que ensinasse aos mais novos o valor da natureza insular. Ao invés, quem por lá anda vê, com pena, o ar triste de algumas plantas que, fustigadas pelo vento, vão tentando sobreviver.

Esqueçamos as plantas ou as pedras vindas de fora da ilha que decoram as alamedas, e reconheçamos que, apesar de tudo, este é um lugar onde os habitantes da cidade podem fazer algo pela sua saúde: caminhar, correr ou andar de bicicleta. Não têm nenhum circuito de manutenção definido, nem a ajuda de nenhum monitor, mas ao menos andam a pé, o que segundo os médicos é fundamental para a saúde, quando feito durante trinta minutos diários. Mas será possível continuar a fazê-lo?

Abriu um espaço de treino e aprendizagem de golfe, em pleno centro do parque urbano, numa área limitada por uma rede com dois ou três metros de altura. Pergunta-se, onde vão parar as bolas batidas, por amadores ou profissionais, entre as nove e dezanove horas, todos os dias? Será que alguém se lembrou que, nesse período, há quem caminhe pelo parque, tranquilamente, procurando ter um estilo de vida saudável?

Uma cidade saudável, ou à procura de o ser, faz-se com a participação das pessoas que, aos poucos, vão descobrindo que não é o espaço que dá saúde, mas o modo como o utilizamos.

(publicado no Açoriano Oriental a 25 Julho 2011)

Saudades do Sol

O inverno tem sido muito rigoroso. Um pouco por todo o lado se ouvem vozes de lamento. Há meses que a chuva não nos deixa, há semanas que as terras ensopam e rebentam encostas abaixo, ameaçando comunidades que há séculos vivem em fajãs, sem temerem barreiras ou falésias. 

Sinais dos tempos. Vivemos em ilhas há séculos, e talvez pensássemos que nada se alteraria. Mas o certo é que o ambiente, outrora sentido como o ar que se respira, cada vez mais, depende da acção humana.

Se outrora construímos sem pensar nos sismos, hoje sabemos que as habitações devem ser estruturadas com outra resistência. Se outrora não limitávamos zonas de protecção da orla costeira ou junto aos leitos das ribeiras, hoje sabemos que é um risco construir nesses limites, sujeitos à erosão das ondas do mar ou ao aumento do volume das ribeiras.

Lamentamos a chuva que não pára, as cheias que destroem a nossa paisagem; lamentamos a desgraça que abalou a Madeira ou a enxurrada que matou no Nordeste. Mas, será que não podemos fazer nada para contrariar uma natureza que se manifesta de forma tão dura?

Clamamos por sol, ansiamos por uma primavera que tarda, pelas flores que teimam em cair mal florescem ou pelo verde que se dilui numa massa de lama que encharca os terrenos. Mas, apesar de todos estes sinais, teimamos em não mudar, mantendo os mesmos hábitos de sempre. Construímos sem respeito por limites de segurança, poluímos indiferentes ao destino dos resíduos, usamos o carro para quase todas as deslocações e resistimos a andar a pé mais de cem metros, seja para apanhar um autocarro, para tratar um assunto num banco ou levar um filho à escola.

Afinal, o que é que nos preocupa, manter o comodismo ou travar a destruição progressiva da natureza? O que é que valorizamos, o conforto pessoal e a indiferença ou a acção, mesmo que individual, no sentido da preservação dos recursos naturais e da promoção de um estilo de vida mais saudável?

Vivemos séculos num pretenso equilíbrio, que mais não foi do que um tempo de “vacas gordas” onde se consumiram, de forma excessiva e inconsciente, recursos naturais, infelizmente não inesgotáveis, como a água, o petróleo ou a riqueza dos fundos do mar. Não pusemos limite à construção de novas habitações e deixamos que a nossa paisagem se transformasse, adensando as zonas urbanas, aumentando os níveis de poluição e intensificando o recurso ao transporte motorizado.

Clamamos por um sol que se esconde, detrás das nuvens densas que ensombram o nosso quotidiano. Ansiamos por dias mais claros, mais quentes.

Entristecemos neste tempo sombrio. Mas, quem sabe, esta é a hora para repensar o modo como vivemos, construímos, pensamos as cidades e protegemos a natureza. Não faz sentido, depois das calamidades que assolaram as nossas ilhas, voltar a fazer tudo na mesma, como se não tivéssemos aprendido nada.

Venha o sol e um pensamento esclarecido, que contrarie as decisões sem fundamento e reabilite a relação das comunidades com a natureza.

A humanidade é parte deste mundo, ocupamos este território tal como as plantas e os animais. Não temos o direito de o dominar, para depois o destruir, mas sim o dever de o conhecer para melhor o respeitar.

(publicado no Açoriano Oriental de 22 Março 2010)

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