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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

10
Fev15

Disfarce

sentirailha

Associamos o disfarce às fantasias de Carnaval. Pendurados nas lojas, as crianças escolhem os seus heróis, entre chapéus de cowboy e coroas de princesa.

Mas, disfarçar não é um exclusivo do Carnaval. Há quem viva iludido o ano inteiro, escondendo emoções, fugindo ao olhar dos outros, evitando o confronto, o incómodo, enganando-se a si mesmo, num faz-de-conta que confunde quem quer perceber onde está a verdade, o que é verdadeiro no seu discurso.

Há mesmo quem seja um perito no disfarce, que não abandona nem a dormir. São atores que encarnam personagens, mal se levantam, escolhendo a roupa certa, treinando o sorriso quando se olham ao espelho para apertar a gravata ou retocar a maquilhagem. Prontos para mais um dia de teatro, assumem de tal forma o disfarce, que poucos são aqueles que os conhecem, sem máscara.

Há mesmo pessoas que não admitem mostrar-se de outra forma. Nunca saem à rua sem estarem retocadas, nunca mostram o seu lado mais genuíno. Receiam que alguém as aborde, sem que tenham tempo de retocar ou recuperar o disfarce habitual.

Com o tempo, o disfarce, que permite incarnar um personagem na família, no emprego, particularmente na política, mais do que uma proteção e uma capa, acaba por esconder ou destruir a autenticidade. E esse personagem, que se constrói com fatos e maquilhagem e que, todos os dias, se estuda ao espelho, acaba colado à pele, confundindo-se com a própria pessoa.

O mais difícil de disfarçar é o rosto, são as olheiras que denunciam cansaço e aquela palidez da falta de sono. Por isso, ainda hoje, os italianos guardam a tradição das máscaras, que encobrem parte do rosto e que, segundo a história, permitiam aos membros de famílias brasonadas, poderem se misturar com o povo e viver o carnaval sem serem julgados pelo estatuto social.

Disfarce, disfarces, em boa verdade são difíceis de evitar. Todos nós construímos personagens com a indumentária com que nos vestimos, do frade ao médico, do sem-abrigo ao empresário. Construímos imagens em função da agenda, dos outros ou dos eventos, esperando que nos reconheçam nessas vestes e nos apreciem.

No Carnaval o disfarce é outro. Para alguns, uma oportunidade para se revelarem na brincadeira e na folia, para outros, uma imposição, já que sentem dificuldade em se divertir só porque assim dita o calendário.

Seja como for, precisamos de ser verdadeiros nas emoções, é fundamental para a qualidade das relações, sejam elas íntimas ou profissionais. A verdade não combina com disfarces.

Falar verdade, ir direto ao assunto e denunciar a falsidade, são fundamentais para a saúde das relações, necessários à qualidade de vida em sociedade, alicerces na construção de uma comunidade.

Precisamos de autenticidade. Todos sabemos que, por melhor que sejam, os disfarces um dia caem e a violência do embate é muito maior. Não vale a pena, fazer-de-conta que está tudo bem enquanto se escondem problemas reais.

Disfarce, mas não ignore!

(artigo publicado no Açoriano Oriental de 10 Fevereiro 2015)

18
Fev10

Da fartura às cinzas

sentirailha

O Carnaval é um tempo “gordo”, de fartura e fritos, de excessos e comportamentos desmedidos.

Um tempo de máscaras onde se podem esconder as verdadeiras identidades, para fazer de conta que se é mulher, sendo homem, que se é palhaço, quando habitualmente até nem se encara as dificuldades com humor.
O Carnaval é tudo isto e muito mais. Um tempo para a comunidade abrir os seus armários de segredos e libertar os seus fantasmas. Uma catarse necessária, que antecede um outro tempo, para os cristãos de introspecção, meditação e penitência, a Quaresma.
Se o Carnaval é um tempo de fartura, de exaltação dos prazeres mundanos, a quarta-feira que lhe segue tem sentido contrário. O Dia das cinzas, ritual que os católicos simbolizam com a imposição de um sinal de cinza, confronta o ser humano com o efémero da vida. Afinal, viver é apropriar-se de um tempo limitado, onde contam menos os bens que se acumulam para si, do que o bem que se faz aos outros.
Entre o Carnaval e a Quaresma, o calendário marca uma transição entre a fartura e a pobreza, entre o brilho das lantejoulas e o cinzento do quotidiano. Para alguns, essa transição nunca é sentida, porque vivem sempre no disfarce da máscara, falseando a vida com exageros, escondendo as dificuldades sob uma aparência de sucesso. Também há quem não consiga aproveitar o espírito de brincadeira que o carnaval proporciona, demasiado afogado em tristezas e dificuldades, incapaz de encarar a vida com optimismo.
O Carnaval e a Quaresma são dois tempos fortes do calendário onde a comunidade revela duas faces distintas, agora mais foliona, depois mais recolhida. No exagero ou na simplicidade, com disfarces ou confrontados com a realidade, Carnaval e Quaresma são tempos de revelação.
Neste tempo de folia, os açorianos aproveitam para se dar a conhecer, dançando, teatralizando a vida em sociedade, batalhando com água ou com confetis. Depois, cansados da festa, regressam a casa, finda a terça-feira gorda, para enfrentar o quotidiano, desta vez sem máscaras, e reencontrar a alegria na partilha dos afectos e nas pequenas vitórias diárias, sempre que se ultrapassam dificuldades.

(publicado no Açoriano Oriental de 15 Fevereiro 2010)

01
Fev10

A tradição já não é o que era

sentirailha

Esta é uma daquelas expressões que merece reflexão.

Se a tradição significa transmissão, quando se conclui que esta já não é o que era, falhou a passagem de testemunho ou os conteúdos culturais foram sendo adulterados, alterados ou até destruídos.
A tradição enraíza, conta a história de um povo, situa-nos numa cultura e, quando partilhada, identifica-nos como membros de um comunidade.
O Carnaval é, no contexto do calendário tradicional, um tempo de transição importante que, à semelhança do mês das almas, liga o mundo dos vivos ao dos mortos, e significa fertilidade, renovação. Tradicionalmente, este é um tempo de inversão e de excessos.
Nos Açores, faz-se a crítica social de forma teatralizada, nos bailinhos na Terceira; exagera-se o consumo dos fritos, com malassadas ou rosas do Egipto de S.Miguel; e, de alguma forma, desrespeitam-se regras e afastam-se males de forma simbólica, atirando bombinhas e estalidos, agredindo com água na “batalha das limas” ou “assaltando” a casa dos amigos, mascarados com outras identidades.
Na terça-feira de Carnaval, a avenida marginal em Ponta Delgada transforma-se num campo de batalha. Uma tradição que, outrora, já foi uma guerra de flores e que em outras comunidades se faz com farinha ou até com tomates.
Para melhor proteger esta festa, o trânsito deveria ser fechado nesta artéria da cidade durante as horas em que os “guerreiros da água” procuram alvos nos passeios ou em cima dos camiões. Permitir que alguns automobilistas circulem para observar as lutas gera confusão, aumenta o risco de acidentes e pode levar a que a batalha de brincadeira provoque danos em viaturas.
Nos últimos anos, a autarquia de Ponta Delgada tem subsidiado os grupos que batalham em camiões. Um apoio que ajuda a manter o espectáculo das lutas, mas que devia ser regulamentado, para que não se perca o espírito de brincadeira e faz-de-conta que caracteriza o Carnaval.
As tradições são cultura oral, por isso, aprendem-se com os mais velhos. Mas, quando o poder político tem de apoiar uma tradição* para que esta não se perca, esse apoio deve garantir a preservação da herança cultural, sob pena de essa tradição deixar de ser o que é, um traço da identidade de um povo.
(publicado no Açoriano Oriental de 1 de Fevereiro 2010) 
* Ao que parece, a Câmara de Ponta Delgada impôs a não utilização de limas por parte dos camiões que "subsidia", ao que parece, para evitar danos sobre viaturas! Porque não se fecha o trânsito e se limita o estacionamento durante a "batalha" e se deixa que a tradição aconteça? O custo da parafina é elevado e quem sabe a autarquia podia apoiar para que os jovens pudessem manter esta tradição, que até pode ser um cartaz turístico. Se assim não for, não tardará muito teremos de deixar a designação "batalha das limas" e passar a designar "batalha dos sacos".
 
04
Fev08

Tristezas não pagam dívidas

sentirailha

Nem pagam nem ajudam a encará-las da melhor maneira.

Por isso, o melhor é levar a vida com alegria e boa disposição. Quem encara a vida pelo lado positivo não tem ilusões de que não há problemas, dificuldades. Mas como dizia a Enf.ª Maria Augusta, Bastonária dos Enfermeiros, citando a propósito Fernando Pessoa, podemos ir juntando as pedras do caminho para com elas fazer um castelo. Podemos ir aprendendo com as dificuldades, em vez de ficarmos bloqueados para, com a experiência vivida, sermos mais felizes, mais capazes, mais realizados.

E ser capaz de pegar nas pedras e fazer delas um contributo para a felicidade não é mais do que cultivar o optimismo. Um optimismo realista, quanto baste para se sentir o sabor da alegria. O optimismo, como refere Goleman, protege as pessoas contra a apatia, a desesperança e paga dividendos, porque o optimista encara o fracasso como algo que está ao seu alcance modificar. Por isso, para quem leva a vida com optimismo, ainda bem que os fracassos acontecem, porque de outra forma a vida seria um falso mar de rosas, um conto de fadas e princesas que casam e vivem felizes para sempre.

A alegria de viver não é um elixir que se compra, ou que alguns julgam conseguir com uns copos a mais e umas anedotas; é um sentimento que nasce da sintonia que se consegue com os outros, com o mundo, com as mensagens que se recebe e os resultados que se vai obtendo do trabalho ou até os impactos que os gestos, palavras ou atitudes provocam.

Quem não se alegra com a felicidade dos outros e raramente exprime as suas emoções; quem não tem objectivos e não investe qualquer tipo de esforço, por mais simples que seja em os alcançar, terá sempre razões para não se alegrar e viver soterrado em tristezas.

Cultivar a alegria como atitude perante a vida é ser capaz de se motivar a si próprio, mesmo quando os outros não apoiam, porque crente na sua capacidade de vencer. Como dizem os brasileiros, é ter pensamento positivo e difundir boas energias, porque se carregam as “baterias” olhando a manhã fresca, o mar azul no horizonte, o pássaro que poisou no beiral da janela ou aquela criança pequenina que balbucia palavras que só a mãe entende.

Tristezas não pagam dívidas e, por ventura, as alegrias também não, mas sempre se vive e lida melhor com essas dificuldades quando se é optimista.

Por isso, em pleno Carnaval, onde aparentemente todos estão alegres, é tempo de libertar a boa disposição que faz ressuscitar nos homens o optimismo, a vontade de viver e de se divertir e brincar. Porque no Carnaval é sempre possível reencontrar o prazer da brincadeira, do faz-de-conta, da partida e do disfarce.

Amanhã saem à rua os foliões, as matronas e os palhaços; homens vestidos de mulher e mulheres de fato e gravata; adultos de bibe e chupeta na boca; monstros e figuras da banda desenhada. Vale tudo, sobretudo na batalha das limas, onde soldados de uma guerra entre iguais brincam com água e serpentinas, atingindo um inimigo faz-de-conta.

É tempo de libertação, excessos e alguma transgressão. Mas, se o espírito for de folia, de convívio e brincadeira, diz o povo que no Carnaval, ninguém leva a mal.

E porque o Carnaval é só três dias e amanhã já é o último, há que aproveitar!e

 (publicado no Açoriano Oriental a 4 de Fevereiro 2008)

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