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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Santo António casamenteiro

Ó Santo António de Lisboa

Tu que tens fama de casamenteiro

Se o casamento fosse coisa boa

Tu próprio não ficavas solteiro!

 

Em dia de Santo António, há arraiais e festas na Lisboa que o viu nascer. Conhecido por casamenteiro, reza a história que terá ajudado uma jovem que queria casar, mas não tinha dinheiro para o dote. Santo António ficou associado no imaginário popular à defesa dos amores proibidos e dos casamentos, socialmente condenados.

A tradição dos casamentos em dia de Santo António é hoje um cartaz turístico, com direito a transmissão televisiva.

Mas será que o casamento é ainda esse conto de fadas?! 

O casamento mudou, assim nos dizem os números. Se em 2003 foram registados 1541 casamentos nos Açores, já em 2023 só aconteceram 945, ou seja, menos 39%. Desses 945, apenas 252 foram celebrados segundo o rito católico, ou seja, 27,3%. No mesmo período, o número de divórcios (551 em 2003 e 546 em 2023), calculado por 100 casamentos celebrados, passou de 36/100 para 58/100, tornando a Região Autónoma dos Açores a que registou, em 2023, a maior taxa de divorcialidade no país (2,3/1000 contra 1,6/1000 no todo nacional).

Podem as televisões passar a imagem do casamento de “sonho”, de noivas vestidas de branco com ramos de flor de laranjeira na mão, mas a realidade vivida já nada corresponde a essa “fantasia” dos casamentos de Santo António.

As estatísticas mostram um aumento significativo de casais em união de facto. Nos Açores, em 2021, 21000 pessoas viviam sem “papel passado”, particularmente entre os 21 e os 49 anos. E se considerarmos os nascimentos “fora do casamento”, ou seja, em que os pais não estavam formalmente casados no momento do nascimento, representaram 54% do total dos nados-vivos em 2021.

O casamento está a mudar, não é esse conto de fadas, com que terminam muitas histórias de príncipes e princesas e filmes “cor-de-rosa”: “no final casaram e foram felizes para sempre”.

O casamento é um compromisso de partilha de vida, uma associação assente no bem-estar emocional, que melhora a vida de cada um dos seus membros.

Houve tempos em que foi uma “obrigação” de adulto, um dever, sobretudo, para as mulheres que ambicionavam reconhecimento social. Hoje, a realidade mudou, mais de 50% das mulheres em idade ativa estão no mercado de trabalho; muitas prosseguiram estudos e têm hoje carreiras profissionais. A vida familiar continua a ser relevante, enquanto espaço de segurança afetiva, mas tem de ser equilibrada com outros projetos de vida, que também concorrem para a qualidade das relações, conjugal e parental.

Por ser um compromisso, implica respeito mútuo e não é compatível com relações violentas nem sentimentos de posse. No casamento a individualidade tem de ser respeitada. Dizer que o outro é a minha “alma-gémea” ou “cara-metade”, pode mascarar a ausência de um projeto de vida comum, que respeite as duas individualidades.

Ouvi uma jovem dizer, “julgava que com o casamento marcado, acabavam os conflitos”!  Ilusão de quem continua presa à “magia” do ritual, que celebra o compromisso, mas não transforma personalidades ou substitui faltas de diálogo.

O casamento de hoje é mais exigente, envolve a pessoa por inteiro, exige uma construção diária, na descoberta conjunta e no crescimento pessoal.

Nenhum casal deveria somar anos de casamento porque “se atura”, mas porque “se ama” de forma cada vez mais consciente, madura e livre.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 13 junho 2025)

 

Casar em Agosto

Há cada vez menos casamentos e, quando acontecem, é frequente os casais viverem em união de facto antes, podendo mesmo terem sido pais. Ao contrário do que se dizia no passado, hoje é perfeitamente possível um filho dizer que “esteve no casamento dos seus pais”.

Longe vão os tempos em que “casar em Agosto era sinónimo de desgosto”, uma rima que associava este período do calendário agrícola, à infertilidade e infelicidade e, segundo reza a história, estava associada ao facto de, na época das grandes navegações portuguesas, ser este o mês em que os marinheiros partiam nas caravelas, rumo ao desconhecido “novo mundo”.

Hoje, esta superstição deixou de pesar na escolha da data de casamento e, estatisticamente, Agosto passou a ser um dos meses onde acontecem mais casamentos.

Esta não é certamente a única alteração que marca o casamento, enquanto contrato conjugal. Os casais adiam, cada vez mais, a decisão de formalizar a sua união, aumentando, por consequência, a idade média no 1º casamento. Em 2020, ultrapassava os trinta anos, para homens (Portugal 34,9 anos; Açores – 32,4 anos) e mulheres (Portugal – 33,4 anos; Açores – 30,6 anos).

Apesar de todas as alterações registadas na vida conjugal, reflexo de uma ponderação faseada do compromisso, a cerimónia de casamento continua a reproduzir a tradição. A boda continua a estar associada à visibilidade pública do compromisso conjugal. Um acontecimento “fantasiado”, onde não faltam os ritos do passado: o cortejo, a noiva levada pelo braço do pai até ao “altar”, o branco do seu vestido, o véu que se destapa na cerimónia, o atirar do ramo e/ou da liga, o corte do bolo e a primeira dança, são traços de uma cerimónia que, recuando no tempo, simbolizava a união entre duas famílias e estava associada à saída da casa paterna e ao início de uma vida em comum.

Os tempos mudaram, mas os rituais parecem guardar a força da coesão cultural, a ligação a um sentido coletivo da própria identidade. Carregada de simbologia, a celebração festiva do casamento estrutura um acontecimento que, mesmo para quem anteriormente vivia em união de facto, significa compromisso público, assunção de uma decisão perante a família e os amigos.

Seriam “desnecessários”, mas permanecem os pedidos de casamento, as despedidas de solteiro/a e as viagens de lua de mel, mesmo para quem há muito partilha casa, cama e mesa.

As transições familiares sempre foram acontecimentos com forte significado na vida das pessoas e das comunidades, por isso são ritualizados. O rito organiza um tempo de incerteza, esse limbo do ser ou não ser, estrutura a passagem de uma condição a outra, segundo um modelo/padrão conhecido e tradicional. A repetição desses rituais favorece uma maior integração comunitária, aproxima as famílias e confere sentido coletivo a acontecimentos pessoais e privados, como são nascer, casar ou morrer. Não poder viver esses acontecimentos foi, por ventura, uma das principais perdas impostas pelas medidas sanitárias, durante a pandemia do Covid19.

Agosto é hoje um mês das férias, período em que se intensificam a mobilidade das populações e as reuniões de família e amigos. Por isso, nada melhor do que este mês para celebrar festas familiares e juntar os amigos, numa festa de casamento.

Casar em Agosto já não traz desgosto, porque se casa por gosto.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 30 de agosto 2022)

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