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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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17
Abr18

Ladies night

sentirailha

A desigualdade social mais difícil de combater é a que se propaga de forma invisível e subtil, como não pudesse ser de outra forma, "porque é assim, sempre foi assim!", "onde é que está o problema?"

A desigualdade social entre homens e mulheres continua a fazer parte do nosso quotidiano, mesmo quando não nos damos conta, sobretudo, quando não nos damos conta.

Um bom exemplo da "naturalização" desta desigualdade está dissimulado numa frase de marketing, a ladies night, que esconde uma visão desigual dos clientes do sexo masculino ou feminino.

Numa ladies night as mulheres não pagam entrada e, ainda, tem direito a bebidas de borla. Além disso, para beneficiar dessa vantagem, terão de consumir essas bebidas num determinado intervalo de tempo.

"Mas porquê dispensar as raparigas do pagamento das bebidas?", pergunto eu de forma ingénua: "Oh professora, de outra maneira elas não iriam à festa e, assim, também os rapazes, sabendo que há raparigas, acorrem em maior número! É sempre assim nas discotecas, nas festas da universidade, as raparigas não pagam, é marketing!"

Mas a que preço? As raparigas são instrumentalizadas para tornarem a festa mais atrativa. Ao mesmo tempo, com bebidas à borla, poderá haver maior desinibição, alguma perda de controlo, o riso fácil e aquela boa disposição que aligeira o sentido de responsabilidade e discernimento. Porque não se oferece aos homens um benefício idêntico? A quem interessa ver as raparigas "alegres"?

O que se perpetua com estes benefícios é apenas o reforço de um modelo desigual, onde as raparigas aceitam voluntariamente ser "adereços" de uma festa pensada para agradar aos rapazes, ao entrarem de borla nos bares, festas ou discotecas.

Mas não será esta uma "discriminação positiva" favorável a uma maior igualdade de acesso? Com que sentido? Mesmo que inconsciente, esta prática indicia uma clara desvalorização do papel feminino.

A pior desigualdade é aquela que não tem visibilidade porque não é consciente.

Não basta ser misto para se falar de igualdade. Não basta ter pessoas diferentes num mesmo espaço para se afirmarem direitos idênticos. A prova está neste olhar de comiseração que "beneficia" as raparigas, outrora arredadas do espaço público.

Num outro contexto, um torneio de futebol misto, um golo marcado por uma rapariga valia dois pontos, enquanto os golos masculinos apenas valiam um. "Vá lá, chuta a bola, que assim ganhamos mais pontos!"

Este é outro exemplo de "discriminação positiva" que descredibiliza a presença de mulheres num universo que é tido por ser do domínio masculino.

Qualquer uma destas "benesses" ao invés de contrariar a desigualdade de género agrava-a, reforçando o sentido de condescendência que perdura no pensamento de quem acha que as mulheres não pertencem a certos meios, seja em contexto profissional, de lazer ou até na política.

As mulheres até podem rejubilar com as ladies nights mas, consciente ou inconscientemente, estão a contribuir para o reforço de uma relação de poder, do qual elas se afastam, deixando-se manipular por modelos que em nada beneficiam o respeito pela dignidade e igualdade de direitos.

Aceitando essas benesses, reproduzem uma relação entre géneros desigual, sublimada por um marketing misógino, deixando na invisibilidade uma discriminação, por ventura tida como positiva, que reforça modelos culturais que afastam as mulheres da liderança e da afirmação da igualdade de direitos, quais "fadas do lar", flores coloridas que enfeitam e animam o ambiente, sobretudo, depois de três bebidas gratuitas!

Sempre foi assim? Mas não devia!

Estamos sempre a tempo de fazer a diferença em prol de uma sociedade mais paritária e justa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 abril 2018)

16
Set10

Liberdade, igualdade e fraternidade

sentirailha

Divisa associada à revolução francesa, que reúne três princípios fundamentais da vida em sociedade. Liberdade, igualdade e fraternidade são valores que norteiam as democracias ocidentais e fundamentam muitos dos movimentos cívicos em prol dos direitos humanos.

Mas é precisamente no país que inspirou o mundo com estes princípios que, recentemente, foram tomadas medidas contra as minorias mais desfavorecidas, a começar pelos ciganos, que visam abranger todos os cidadãos que “incomodam”, por serem imigrantes e estorvarem a sociedade francesa, brilhante e “glamorosa”, onde parece não haver lugar para sem-abrigo, mendigos, indigentes ou simplesmente para quem não interessa ao país.

O governo francês decretou a expulsão de milhares de ciganos, comunidades inteiras obrigadas a regressar às suas origens. Se não fora o facto de ter sido o presidente do Governo francês a decretar tal medida, dir-se-ia que a proposta partiu dos radicais de direita, que nunca esconderam a xenofobia e o racismo com que encaram as minorias étnicas.

Como pode um país, que se afirma defensor da liberdade, igualdade e fraternidade, pretender eliminar cidadãos, cuja cultura itinerante e fortemente estudada por antropólogos franceses, sempre foi marcada pelo enraizamento temporário e uma actividade económica ambulante?

Como pode um país que se construiu, também, com a ajuda de muitos imigrantes, incluindo portugueses, enxotar aqueles que não conseguiram atingir níveis médios de rendimento e sofrem as consequências de terem aceitado trabalhar sem condições nem garantias; que ocupam os lugares que os franceses rejeitam e vivem em alojamentos de periferia, para onde sempre foram empurrados os que não interessava misturar?

Que cidadania é essa onde os direitos são privilégios de alguns?

Vivemos numa aldeia global e é hipócrita aceitar os imigrantes enquanto trabalham sem condições de segurança e depois recusar-lhes o direito e o apoio à integração, quando perdem o emprego ou a saúde!

Até o Papa reprovou a expulsão dos ciganos e apelou ao acolhimento.

Liberdade significa diversidade. Não é compatível com arrogância, ou silenciamento das vozes contrárias.

A igualdade não anula as diferenças, mas reconhece a humanidade que dignifica o ser humano, qualquer que ele seja, em contexto de integração ou excluído dos padrões ditos normais.

Um país que nega a diversidade que o caracteriza, recusa o direito à integração e escolhe quem pode ser cidadão de direito, não conhece o significado da palavra fraternidade.

Sarkozy associou os ciganos à criminalidade, expulsou comunidades inteiras, porque, supostamente, alguns dos seus membros ameaçavam a segurança do país e prepara-se para “limpar” o país de outros imigrantes, a pretexto de estar a proteger os seus compatriotas. E há franceses que aplaudem, voltando a cara para não ver como vivem esses imigrantes, nem reconhecer como lhes é negado o acesso ao trabalho, ao mercado da habitação ou ao crédito bancário e como são discriminados nas escolas. Esses sim são factores que podem estar na origem da criminalidade.

Liberdade, igualdade e fraternidade, uma divisa esvaziada de sentido por políticos que desrespeitam os direitos humanos.

(publicado no Açoriano Oriental a 13 Setembro 2010)

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