Distância física e proximidade social
À porta da loja um letreiro, “mantenha um metro e meio entre pessoas”. Na praia um cartaz, “não menos de 3 metros entre guarda-sóis”, no jornal um anúncio, imagine uma vaca entre si e alguém ou então, um atum, dos grandes.
Mantenha-se à distância dos outros, na areia e no mar, na fila do supermercado ou quando espera a sua vez e ponha os pés em cima do autocolante ou atrás da fita amarela. Inclusive nas igrejas, há letreiros nos bancos para “não sentar” e estão proibidos os abraços da paz.
O distanciamento físico até pode ter algum impacto no controlo da pandemia, mas ninguém deveria referir-se a esse metro e meio ou dois metros de afastamento como “distância social”.
A distância física é controlável, a distância social destrói as relações humanas, mina a construção da sociedade e agrava o fosso entre gerações, classes sociais, grupos ou indivíduos.
Falar de distância social significa perder ou desqualificar a comunicação entre pessoas, já de si dificultada pelo uso obrigatório de máscaras, e agravar o isolamento de membros da família, sobretudo os mais velhos, deixar de conviver com amigos ou colegas.
Temos de guardar a distância física, mas não podemos acabar com a proximidade social, que não se mede em centímetros, mas em compreensão, empatia, palavras e gestos de atenção. A nossa linguagem, verbal e corporal, diz muito sobre quem somos e o que sentimos. E, a vida humana depende de relações com identidade e afetos.
Não podemos, nem devemos agravar o distanciamento social, já de si imenso, quando analisamos os números da pobreza e o fosso entre níveis de rendimento, particularmente na nossa região.
Dificilmente iremos sobreviver como sociedade, se continuarmos a isolar os mais velhos ou se construirmos o quotidiano, com base no medo, na desconfiança ou na indiferença.
Há que recuperar a sanidade, separando o tempo de estar em casa e o convívio familiar, do universo laboral. Quando as casas são também escritórios ou os quartos de hotel, gabinetes de isolamento, cria-se uma nova realidade, confusa, tensa, geradora de grande ansiedade, onde se perdem os limites do que é privado ou público, do que é intimidade ou trabalho, numa lógica totalitária que reduz os espaços e as dimensões da vida, particularmente grave quando se impõe distância física à vida das crianças.
A criança precisa de proximidade para crescer e descobrir o mundo, os outros e o seu próprio corpo; precisa de ser amada, de toque e, sobretudo, de colo. Uma criança não deveria ser obrigada a brincar com os amigos a dois metros de distância, porque brincar e ser amigo é estar juntos.
Medidas de distanciamento físico roubam o direito a ser criança, com repercussões, que só o futuro dirá, no seu desenvolvimento como pessoa.
É compreensível que a reação a esta pressão seja, por vezes, descontrolada. Abrem-se as comportas e as pessoas saem em desalinho, esquecendo a distância física, ansiosas por voltar a sentir e a viver em proximidade social.
Distância física não pode ser sinónimo de distância social.
A distância física afasta-nos do outro, a distância social agrava o nosso desconhecimento sobre quem é esse outro e isso é o princípio das desigualdades, da xenofobia, da prepotência e da discriminação.
Podemos ser obrigados à distância física, mas não podemos evitar a proximidade social.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 3 setembro 2020)