Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

09
Abr12

Novos excluídos

sentirailha

A exclusão social ganha novos contornos na educação, protagonizada por medidas que evitam as diferenças culturais, de classe, de recursos e pretendem construir pequenos mundos de elite, onde só há lugar para os filhos de famílias que se conhecem, entre as quais se esperam alianças, casamentos e até negócios.

Sob a capa de medidas que visam a excelência e o rigor, aumentam a exclusão dos mais frágeis ou carenciados. Pretendem separar as crianças em função do grau de dificuldades, de deficiência, do bairro onde residem ou dos benefícios sociais que recebem. É a cultura de mérito, dizem os defensores desta discriminação.
Mérito? Com base em que critérios? Ter livros em casa, um computador pessoal, pais licenciados que, se não sabem explicar, pagam a quem o faça? Mérito conquistado num meio favorável, onde não faltam aulas de piano, de ballet ou violão, judo e onde há sempre verba para comprar material didático, desportivo e outros equipamentos, preferencialmente de marca?

Quando um ministro da educação retoma a velha máxima de que as escolas públicas devem separar os bons alunos dos que não têm resultados favoráveis, retoma a velha divisão social de classes, que indiretamente está associada a essas performances. Porque, não podemos esquecer que os contextos culturais mais favorecidos influenciam, de forma direta, os bons resultados dos alunos, e justificam aquilo que o sistema apelida de “mérito”.

Depois de se ter lutado por uma escola inclusiva, que não discrimine os deficientes, mas antes promova a solidariedade e uma educação para todos, eis que o ministro Nuno Crato retoma a ideia das turmas especiais para meninos especiais, reforçando a exclusão. Quem sabe, prossegue a máxima de que “longe da vista, longe do coração”, consequência direta da discriminação. Afasta do coração, dos afetos, aqueles que são excluídos da cidadania, considerados menores, menos capazes, com menos direitos, demasiado diferentes.

Esta nova forma de excluir é subtil, não põe letreiros, mas dificulta a o acesso, não proíbe, mas cria obstáculos, não é oficial mas acaba por penetrar o
pensamento de uma minoria instalada, com poder. Uma minoria que se julga superior e que, por isso, despreza, explora e até ridiculariza quem não pertence ao meio onde vive.

Nesta visão elitista, não há lugar para a diferença e muito menos para o multiculturalismo.

Em tempo de crise, quando faltam empregos e as dificuldades aumentam, há que estar vigilante, porque se corre o risco de ver intensificar a intolerância perante os imigrantes, os repatriados, os deficientes ou simplesmente os cidadãos que residem em zonas socialmente desfavorecidas.

O que pretende o atual governo da república para a educação é um retrocesso. Sob a capa de promover o mérito, quer igualar o que é diferente, obrigando alunos que foram alvo de currículos adaptados à realização de exames gerais, como se a uniformização fosse um critério de justiça. Recuperam o exame do 4º ano, introduzindo um travão ao processo educativo, num país que mal conseguiu generalizar a escolaridade obrigatória de nove anos e que assim, se isola ainda mais no contexto europeu.

O que pretende este governo do PSD/CDS? Reconstruir velhas fronteiras, entre ricos e pobres, entre filhos de família e os outros, sem nome?

Quem defende uma sociedade inclusiva, justa, não pode admitir que, a cobro da promoção do mérito, se agravem desigualdades sociais e se criem novos excluídos.

(publicado no Açoriano Oriental de 2 Abril 2012)

08
Set08

O primeiro dia de escola

sentirailha

Esta semana milhares de crianças e jovens têm de acordar mais cedo, depois de três meses de descanso prolongado, dias sem conta de brincadeira e, por ventura, tempos ilimitados a ver televisão e a jogar no computador.

O primeiro dia de escola é sempre um dia especial. O reencontro com os colegas do ano anterior ou o conhecimento de outros alarga o universo das relações das crianças e dos jovens. Os pais sempre importantes, fonte de afecto e de segurança, referência da família e da casa, são temporariamente afastados, para dar lugar ao grupo de pares e à relação com os professores.

Primeiro dia de aulas é dia de praxes, ritual que confere aos veteranos um pequeno poder, transitório e simbólico, de quem é uns anos mais velho e já conhece os cantos da escola. À semelhança de outros rituais de iniciação as praxes permitem aos caloiros vivenciar a fronteira entre etapas, entre idades. São sempre momentos de confronto com a capacidade de resistência, mas que podem ser ultrapassados quando se leva tudo na brincadeira. Sem ofender a dignidade ou faltar ao respeito pelo outro, o ritual de entrada numa nova escola deve ser apenas e só uma marca de transição. Há pais que numa atitude supostamente protectora, acompanham os filhos à escola na esperança de poder evitar que os filhos sejam “praxados”, entrando num mundo que não lhes pertence, contribuindo assim para que não cresçam, e não sintam essa transição como momento importante da sua própria historia de vida.

Não é fácil deixar um filhote voar livremente!

Para muitos pais, o primeiro dia da escola dos filhos é também um momento marcante e não raras vezes são eles quem fica com a lágrima no olho, quando o filho ou a filha entram pela primeira vez na creche ou no Jardim-de-infância.

O primeiro dia de escola é sem dúvida uma marca que define as relações entre pais e filhos e representa, em muitos casos, um acontecimento importante no processo de autonomia que define o crescimento. Os filhos não podem viver eternamente debaixo da asa dos pais e a escola é, sem dúvida, o mundo onde mais rapidamente as crianças e os jovens aprendem a definir o seu próprio espaço, por contraponto à família.

Aos pais cabe a tarefa de incentivar o gosto por aprender e o dever de valorizar o lugar da escola na formação pessoal da criança e do jovem, não apenas porque sem estudos mais tarde terão dificuldades em encontrar emprego, mas porque o saber é poder e o conhecimento é fundamental para o entendimento.

Não basta dizer que a escola é obrigatória, é fundamental educar no sentido de uma escola necessária. Porque é necessário saber e fundamental alimentar a curiosidade.

Longe vão os tempos em que o Estado dispensava crianças dos estudos, votando-as à condição de analfabetos e limitando os seus horizontes e a sua ambição de ser. Longe vai o tempo em que o Estado calava as perguntas e fomentava os espíritos remediados e as fracas ambições.

Actualmente, numa sociedade que se diz do conhecimento, ser livre significa poder questionar e saber é ser capaz de responder.

(publicado no Açoriano Oriental de 8 de Setembro 2008)

29
Fev08

Desistir de estudar

sentirailha

Este é sem dúvida um dos maiores problemas sociais e educacionais que tem marcado a realidade portuguesa.

Durante décadas, pouco exigente em relação à qualificação, o País ainda não consegue evitar que grande parte dos jovens desista de estudar antes dos 18 anos e que muitos o façam aos 16. Atingindo a idade limite da escolaridade obrigatória, os jovens e as famílias entendem ter cumprido com o que a sociedade lhes impunha e abandonam o sistema educativo; em alguns casos, fora da escola, as raparigas aguardam um casamento e os rapazes um “serviço”.

“Desistir de estudar” é um problema social que tem merecido a atenção de investigadores, políticos e professores. Segundo alguns autores, há razões sociais e culturais que condicionam as aspirações dos jovens. Por exemplo, terem pais pouco escolarizados, que foram alunos absentistas; viverem em condições materiais desfavoráveis; não valorizarem a escola, como lugar de aprendizagem e formação cívica.

Para além do contexto desfavorável do ponto de vista económico, para muitos, estudar ainda se resume a saber ler, escrever e contar, competências que uma vez adquiridas são consideradas suficientes. O conhecimento do mundo, das ciências, da História ou da Geografia são considerados dispensáveis, pois em nada parecem mudar o quotidiano dessas famílias.

Combater a vontade de desistir, implica alimentar objectivos, projectos de vida que passem pela formação. Porque, para muitos desses absentistas, a escola não é entendida como um lugar onde se aprende a ser e a conviver, um lugar onde se descobrem potencialidades e se interiorizam regras de convivência. Antes pelo contrário, sentem-se rejeitados, marginalizados e, por isso, entendem que não são bem vindos nesse lugar. Está hoje comprovado que as crianças que são socialmente rejeitadas pelos colegas, ou mesmo esquecidas dos professores, têm maior tendência para desistir dos estudos. Porque sentem mais dificuldades na aquisição das competências básicas, porque não se comportam na sala de aula de forma adequada e só quando chega a hora da ginástica ou das expressões plásticas, evidenciam capacidades e obtêm bons resultados, essas crianças e jovens acabam por desistir, face a uma permanente desvalorização do que não são capazes de fazer, sem nunca receberem um elogio e admiração pelas competências reveladas.

Desistir dos estudos não é uma fatalidade para alguns. É uma solução por vezes desejada por um sistema que lida mal com a diversidade de percursos de vida, e que por vezes se esquece dos que ficam na margem, sejam os que têm mais dificuldade ou mesmo os génios, que escapam à média.

Há que analisar as razões que conduzem à limitação dos percursos escolares de muitos estudantes. Refira-se a propósito que na União Europeia a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que não está a frequentar o sistema educativo era de 15% em 2006, enquanto que em Portugal esse valor ascendia a 35%.

Na realidade, o problema no nosso País, e em particular na nossa Região, ainda não está ao nível dessa faixa etária, mas antes com os jovens até aos 15 anos. Procura-se evitar que desistam do sistema educativo entre os 16 e os 18 anos, oferecendo-lhes alternativas escolares.

Apesar dessas estratégias, todos temos consciência que a permanência dos jovens no sistema educativo implica que famílias e, sobretudo os mais novos, entendam que aprender é uma necessidade, e que o ser humano só se realiza se cultivar a vontade de querer saber mais. Para além disso, é importante e necessário renovar o clima relacional nas escolas, melhorar a relação dos jovens entre si e com o corpo docente, fomentando o sentido da cooperação, do entre ajuda e da solidariedade, valores que podem fazer da escola um lugar de afirmação de uma cidadania plural.

(publicado no Açoriano Oriental, 25 Fevereiro 2008)

18
Fev08

Educar não é domesticar

sentirailha

Os estudiosos da educação definiram de um modo geral três estilos educativos: o autoritário, o negocial e o “deixa andar”. Na prática, um educador utiliza os três estilos em momentos diferentes, perante pessoas ou circunstâncias diferentes.

No entanto, se analisarmos o recurso de um educador aos estilos possíveis, há sempre um que é mais utilizado. Pais ou educadores autoritários têm muita dificuldade em negociar. Estabelecem com o seu educando uma relação de domínio, poder, condicionalismo e dependência.

Pais ou educadores que preferem um estilo negocial avaliam mais frequentemente a realidade do educando, as causas que explicam o seu comportamento; escutam o seu ponto de vista; procuram descodificar o modo como ele vê a realidade e o significado que lhe atribui. Um pai, mãe ou professor que negocia, orienta mais do que impõe, responsabiliza mais do que culpabiliza.

Finalmente, o estilo do “deixa andar” nem impõe regras, nem negoceia opções; depende da disposição e sobretudo, não é firme no controlo, raramente define regras e quando o faz, esquece-se de as fazer cumprir. No estilo desleixado do deixa andar, não há uma aprendizagem de modelos parentais positivos; todos podem ser referências e muitas vezes são os outros, os não educadores que ensinam.

Qualquer um destes estilos até pode ser eficaz, se ajustado à realidade do momento, se adequado aos educandos. Mas o mais certo é que o recurso sistemático a uma única forma de educar não é eficaz, porque há horas em que a negociação deve dar lugar à firmeza inflexível ou a inversa. Há momentos em que é preferível não intervir e “dar corda” para ver até onde o outro é capaz de ir, por sua conta e risco.

Educar não é fácil e encontrar um estilo adequado ainda é mais difícil. Quantas vezes se utilizam estratégias que foram eficazes com um filho mais velho, mas que se revelam ineficazes para com o mais novo. Ou então, procura-se adoptar os modelos com que se foi educado e se conclui que nem tudo é aplicável, porque os tempos são outros e a geração dos filhos tem de ser educada para viver no seu tempo.

Encontrar o modelo educativo mais correcto é um processo contínuo de aprendizagem com os educandos, porque não há doutoramentos em educação de filhos, mas antes uma experiência acumulada, uma atenção refinada que se constrói de pequenos detalhes. Um bom educador antecipa o comportamento do seu educando, reconhece o seu modo de agir, mesmo quando ele não está presente: “isto é obra de fulano”. Aos poucos aprende a sintonizar e a comunicar de forma simplificada e, tal como um oleiro, ajuda a moldar o barro do seu ser de forma suave, fazendo soltar o ser único que nele habita. Um bom educador sabe que não há modelos que sirvam a todos.

Ouvem-se os professores queixarem-se da indisciplina, do palavreado dos alunos, da falta de educação. Do seu lado, os pais sentem-se impotentes para controlar todas as influências que afectam o comportamento dos filhos.

Entre professores e pais, as crianças e os jovens procuram referências sólidas, firmes, que os ajudem a balizar a vida; modelos para copiarem ou para contrariarem; portos de abrigo que sejam refúgios quando perdem o norte. Afinal, como é que eu faço? O que é que está certo?

Quando um educador, seja ele familiar ou professor, desiste de ser um modelo para os mais novos e não é capaz de afirmar e defender aquilo em que acredita ou, pelo contrário, julga-se o único detentor da verdade e procura impor um modelo à força, esquece-se de que educar não é domesticar, mas ajudar a libertar a individualidade e fazer despertar o melhor de cada um.

(publicado no Açoriano Oriental a 18 de Fevereiro 2008)

Mais sobre mim

Visitantes

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D