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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Regressar

Só regressa quem parte.

Regressar é voltar a um lugar que se conhece, um ponto no mapa, uma referencia pessoal e familiar.

Apesar de o dicionário dizer que "regresso" é antónimo de "progresso", regressar não significa deixar de progredir, não é sinónimo de retrocesso, mas antes é recuperar o fio condutor que dá significado ao curso da vida.

Agosto é conhecido, sobretudo no continente, por ser o mês dos regressos à terra. São milhares de emigrantes que cruzam as fronteiras do país, trazendo no coração memórias que esperam reencontrar na comunidade onde nasceram e na vida quotidiana dos que aí ficaram.

Regressam às aldeias, em geral quando todos se preparam para as festas e, por isso, encontram fartura, convívio, amigos de infância e divertimento, uma animação que, em algumas terras, contrasta com o resto do ano onde apenas a população mais velha teima em ficar.

Mas agora o tempo é outro. Há música no café, as portadas de muitas casas estão abertas e o sol vai aquecendo as almofadas que cheiravam a mofo, guardadas em naftalina à espera do verão.

Este é o tempo para se viver intensamente, recordar o passado e atualizar o presente. Saborear as comidas que ficaram na memória e reencontrar a infância à mesa e nos amigos. Recuperar velhos hábitos e rotinas que tiveram de ser esquecidos para se poder viver o quotidiano noutras paragens do mundo, longe da família e da terra natal.

(artigo publicado no Açoriano Oriental a 9 de Agosto 2016)

Regressar a casa é sempre regressar a si mesmo, à pessoa que fomos e que não deixamos de ser, porque a vida transforma mas não apaga. Somos sempre nós mesmos, aqui ou noutro lugar. Mas, sempre que regressamos, retomamos os fios que tecem a vida e que fazem sentido na identidade que transportamos.

Quando acontece deixarmos de regressar, vai se apagando do mapa um lugar, perde-se o colorido das memórias e uma parte da história fica esquecida. Há quem prefira assim, fazer de conta que nada mudou e longe da vista, longe do coração, guardam na memória um postal desatualizado.

É bom regressar ao que somos, conscientes que entretanto o tempo alterou o lugar que deixamos.

Alguns regressam à procura do que deixaram, um cenário onde em tempos viveram que gostariam de ver inalterado, como se as pessoas que aí ficaram não vivessem, também elas, mudanças.

O tempo está sempre ligado ao espaço e não há como separar estas duas dimensões. Afastamo-nos de um lugar, das pessoas e não podemos evitar que o tempo as altere e modifique o que julgávamos eterno.

Vale a pena partir só para poder sentir a alegria do reencontro com esse lugar que distinguimos no mapa das nossas vidas.

São cheiros, aromas e sabores, cores e sensações. É como se de repente pudéssemos respirar melhor e nos sentíssemos como "peixe na água".

Regressar é alimentar quem somos, reencontrar pessoas, lugares ou até detalhes, como dormir na cama da casa de família ou sentir a densidade do mar abraçar o corpo numa sensação única de prazer.

Regressar pode ser um remédio d'alma que nos reconcilia com a vida.

É tão importante esse reencontro que, em cidades como Londres, Paris ou Boston, se constroem quarteirões ou apenas algumas lojas, onde as comunidades emigradas conseguem regressar sem sair do local, ouvindo falar a língua natal, comem pastéis de bacalhau, enquanto comentam os últimos resultados no futebol português.

Regressar! Este é o mês dos regressos, para alegria dos que chegam e dos que cá ficaram.

Sejam bem-vindos! Já tínhamos saudades!

Só espero que na hora da partida, levem no coração a vontade de regressar, assim fica mais fácil esperar.

Voltem sempre.

 

Este parte, aquele parte....

Cresci ouvindo esta canção e sempre que alguém trauteava esta música ao som de um violão, sentia uma tristeza imaginando ranchos de pessoas caminhando por campos de trigo, de sacas às costas, arqueadas com o peso dos haveres, chorando... Via lenços brancos acenando de longe... e aquela mancha de pessoas perdendo-se no horizonte.... partindo em busca de melhor vida.

Partir ... é um verbo doce amargo, que traz consigo viagens com e sem regresso... despedidas e abraços sentidos... dedos que se desligam até não poderem se tocar.

Partir recorda-me barcos a vapor abandonando o cais, levando militares para África, famílias inteiras que rumavam para um Novo mundo, estudantes em fim de férias... acenando do cimo do convés ou da porta de embarque do aeroporto. Partida é aquele último olhar no retrovisor onde se destacam as figuras daqueles que deixamos ao portão em fim de férias. Até para o ano, até Deus querer, até sempre...

Este parte, aquele parte e todos, todos se vão....

É uma canção datada, que recorda a emigração de milhares de pessoas dos campos, que procuravam nas cidades a felicidade, a fartura, o futuro dos filhos.

Emigrar, emigrantes, eram palavras que tocavam as vidas de muitas famílias e marcavam o calendário das chegadas, quando desciam as escadas do avião... era dia de festa. A família toda reunida à espera de reconhecer os rostos alterados pelo tempo, endurecidos pelo trabalho nas fábricas.

Como mudaste, estás bonita, ele está tão grande, quem o viu partir....agora é um homem.

As cartas de chamada e as sacas de América, eram sinais de que o sucesso era possível, mesmo que poucos adivinhassem a que preço. Mas havia abundância, trabalho, e o que estas realidades permitem ter, uma casa, um carro e roupas novas.

O tempo foi passando, as vidas foram ficando melhores e aos poucos os números da emigração foram baixando até serem residuais. As vozes diziam, satisfeitas, que já não era preciso emigrar, temos quase tudo o que a América oferece. Os frigoríficos cheios, os supermercados com variedade, as roupas de marca e uma qualidade de vida invejável.

Crescemos a distanciamo-nos da emigração que afetou a juventude dos nossos pais e retirou ativos de muitos concelhos. Aos poucos parecia que retomávamos o equilíbrio, vendo nascer e crescer as crianças na terra, criando empregos e fixando famílias. Algumas, poucas, até regressavam da emigração, para investir na terra que lhes serviu de berço, porque nunca esqueceram as raízes.

Agora, pensávamos nós, cabe-nos a vez de receber outros povos que buscam melhorar as suas vidas, imigrantes de países de leste ou africanos.

Mas, apesar de termos vivido na pele a saída de tantos, nem sempre soubemos acolher da melhor forma os que procuraram ajuda nas nossas terras.

Talvez porque a emigração era assunto do passado, agora era tempo de partilhar negócios, promover viagens e transações, sobretudo com emigrantes de sucesso. Passaram-se mais de cinquenta anos. Até há bem pouco tempo, a emigração era um problema histórico e demográfico que tinha afetado a pirâmide etária no século passado.

Mas de novo, a música regressa e “este parte, aquele parte e todos, todos se vão....

As palavras pesadas desta letra ressuscitaram, ganharam vida para a geração dos jovens, os nossos filhos, aqueles que criamos na certeza de que o mundo ia ser diferente...

Hoje não são os campos que se esvaziam, mas os jovens qualificados rumam a outras terras à procura de trabalho.

O país fechou as portas para balanço, emperra-lhes o futuro, como se eles pudessem esperar, e aguardar por melhores dias, sentados, com o diploma nas mãos ...

Aguardem, não tarda muito vamos ter uma retoma! Vejam! O desemprego até está a baixar!

O futuro não se congela, para mais tarde retomar o seu curso. Hoje, vivemos o futuro de ontem e cada dia que passa é tempo desperdiçado, é futuro comprometido, sobretudo quando deixamos jovens à margem, à espera... sem resposta.

Não há criação de riqueza sem investimento no capital humano, não há crescimento da economia sem a participação das pessoas. A economia mesmo que cresça não gera desenvolvimento se não for pensada com e para as pessoas. Mas será que isso interessa a este país? A esta região? Para onde vamos? O que queremos fazer das qualificações que instamos as famílias a proporcionar à geração mais jovem?

Este parte, aquele parte, e o país fica mais pobre porque dispensa, desiste de investir nos seus membros.... e manda-os aguardar...

Tarde de mais.

Alguns já foram.... e muitos mais irão.....Portugal ficas sem filhos que possam cortar teu pão.

 

PD, 28 Agosto 2014

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