Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Duas vezes somos crianças

Nada mais errado do que dizer, "duas vezes somos crianças".

Com base nesta ideia, não se reconhecem capacidades na fase mais avançada da vida e ocupam-se as pessoas mais velhas com atividades de criança: colorir desenhos, recortar formas ou, simplesmente, ficam esquecidas/adormecidas diante de um televisor ligado.

A velhice não é uma segunda infância. É um tempo onde o envelhecimento se manifesta de forma mais evidente, nas perdas auditivas, visuais ou de mobilidade. Mas, nenhuma dessas alterações compromete as memórias, a vontade de viver ou a capacidade cognitiva ou artística.

Cada vez há mais pessoas que chegam a idades mais avançadas. E se pensarmos no futuro, a população portuguesa será ainda mais grisalha, a fazer fé nos números da natalidade e no aumento da esperança média de vida. Chegar aos setenta ou aos oitenta deixou de ser uma "sorte", para passar a desígnio de muitos. Por isso, as instituições, os serviços, que cuidam e atendem pessoas mais velhas, precisam de "reciclar" o conceito de velhice e o modo como, muitas vezes, atendem as pessoas mais velhas.

Parece anedota, mas acontece ouvir um empregado num comércio falar mais devagar com um idoso, como se ele não entendesse português ou tivesse dificuldade em acompanhar um discurso normal. Em outras ocasiões, aumenta-se deliberadamente o tom de voz, pressupondo que, se alguém tem mais de 65 anos, já deve ser surdo, esquecendo que muitas dessas pessoas utilizam aparelhos auditivos.

A velhice é cada vez menos um tempo para ser desperdiçado ou mal utilizado. Afinal, se a esperança média de vida, atual, prevê mais 15 anos após a idade da reforma, então há muito tempo para ocupar em novas experiências, manter-se autónomo e realizar sonhos, tantas vezes adiados.

Os idosos gostam de ser a retaguarda dos filhos, quando cuidam dos netos. Mas há que respeitar os seus tempos, as atividades que lhes dão prazer, e não comprometer essa "agenda" com demasiadas obrigações. Afinal, os anos passam a correr e pode acontecer que os últimos até não sejam os melhores, em termos de saúde. Por isso, é importante concretizar projetos, quando ainda se sente forças, vontade e se tem os recursos adequados para tal.

Fazer projetos? Dirão alguns, é coisa de jovens, de quem, supostamente, tem a vida toda pela frente. Não é verdade.

Um projeto não precisa de ser de grande monta; acabar aquela toalha bordada ou organizar a coleção de selos; ler os livros que ficaram na estante ou limpar os canteiros do jardim. Tudo pode ser um projeto. Fazer uma caminhada ou nadar trinta minutos, visitar um amigo ou ir ao cabeleireiro.

A vida só faz sentido quando vivemos cada momento, com significado.

Os mais velhos não perderam esse sentido, antes pelo contrário. Agora que percorrem a última etapa da vida, olham para o caminho com serenidade, recolhem a sabedoria acumulada e, só não a partilham, quando são tratados como crianças ou excluídos das decisões coletivas, supostamente, porque não lhes interessa a atualidade.

Mesmo que voltem às papas, por faltarem os dentes; às fraldas, por estarem incontinentes ou às letras aumentadas, porque a vista não ajuda, nada disso define a velhice.

Apenas o tempo, o saber e o percurso vivido importa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 outubro 2018)

Envelhecer não é doença

O século vinte marcou definitivamente as condições de vida de muitas populações, particularmente nos países do mundo dito ocidental.

Os avanços da medicina, a introdução do saneamento básico, o abastecimento de água e a rede eléctrica contribuíram para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. As novas tecnologias da saúde, os meios auxiliares de diagnóstico, entre muitas outras inovações médicas, contribuem para debelar enfermidades que outrora condenavam à morte.

Se recuar à década sessenta do século XX, quando nasci, a esperança média de vida ao nascer rondava os setenta anos, menos dez do que é hoje.

Nessa época, a idade da reforma correspondia não apenas ao fim da vida activa mas a uma real perda de capacidade física. Hoje, a média da esperança de vida ronda os oitenta anos, daí que se fale de uma nova etapa no ciclo vital, a quarta idade, que abrange a geração com mais de 75 anos.

Vivemos mais tempo e queremos, todos, viver melhor. Não basta acrescentar anos à vida, é preciso dar vida aos anos que se vive.

Um prazo limite? Teremos sempre, porque nascemos marcados por esse selo que é a finitude da espécie, razão de ser da própria vida. Somos um projecto limitado, mas infinita pode ser a forma como vivemos esse tempo, o contributo que damos, qual tijolo que colocamos na construção do mundo, no local onde vivemos. Não importa se o nosso contributo é mais ou menos notado pelos que nos sucederão. Também os alicerces de uma casa não se vêem e, sem eles, a construção ruiria. O importante é contribuir, participar, apoiar, estar atento para poder elogiar mas também criticar. É estar presente e ser presente neste fluxo de tempo que faz a história.

Ter mais tempo de vida tem levado as sociedades actuais a olharem de modo diferente para os idosos. Há muito deixaram de ser velhos. São cidadãos seniores que as gerações mais novas aprendem a reconhecer, descobrindo que em todas as idades há alegria de viver. Afinal há muito mais vida para além do trabalho remunerado, do emprego, ou mesmo da vida familiar. Ter hoje mais de sessenta anos é usufruir de um tempo que pode ser criativo, onde reine a serenidade, novas aprendizagens, convívios e em que se pode viver liberto de constrangimentos e obrigações.

É certo que a velhice nem sempre é um tempo em que se respira saúde.

Mas, se por um lado, o corpo físico dá sinais de limitação, a resistência é menor e a caixa de comprimidos não pode ser esquecida, também não é menos certo que se envelhece melhor ou pior, dependendo do espírito e da atitude com que se encaram as dificuldades da vida. Sempre que um idoso desiste de sair de casa, recusa-se a frequentar lugares de convívio, perde o hábito de ler, telefonar aos amigos ou conversar com os netos, envelhece um pouco mais e torna mais pesados os anos que tem.

Envelhecer não é doença, mas um desafio diário, próprio da condição humana.

Envelhecer não é fatalidade mas condição, não é defeito mas feitio de quem está vivo e acredita que há sempre motivos para não desistir de aprender, experimentar e descobrir esse mistério que é viver!

(publicado no Açoriano Oriental de 5 de Julho 2010)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D