Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

As Sufragistas

Nem sempre a História soube reconhecer o mérito de quem lutou, com a própria vida, para que outros tivessem direitos consagrados em lei, particularmente, quando essas lutas foram e são protagonizadas por mulheres.

Recordo ouvir dizer "tem um ar sufragista", para rotular uma mulher que punha em causa o estereótipo da esposa submissa, dedicada aos outros, que se apaga para que a família tenha conforto e comida na mesa.

Longe dessa imagem de mulher fria e distante, as sufragistas recordam uma página da história europeia, de luta por um estado de direito, com base no sufrágio universal, prenúncio de muitas outras reivindicações, em diferentes países, por sociedades mais igualitárias e justas.

Infelizmente, a luta pela igualdade de género continua a fazer sentido no séc. XXI, quando governos, como no Brasil, pretendem combater a "ideologia de género" e pintar o país de azul e cor de rosa, o mesmo é dizer, institucionalizar a separação de papéis, funções e direitos em função do sexo.

Nunca é demais recordar que a igualdade de género é uma face da democracia. Não se trata de reivindicar direitos para as mulheres, mas alterar a relação entre homens e mulheres, seja no mundo da casa ou do trabalho, da política ou das profissões, denunciando a desigualdade de poder, a violência ou a exploração.

Mas porque é tão difícil afirmar a democracia?

A história das mulheres que lutaram, nas primeiras décadas do século XX, pelo sufrágio universal é bem demonstrativo dessa dificuldade*.

Não se trata apenas de mudar a lei, mas de transformar a própria estrutura da sociedade, formas de pensar, significados associados ao que é ser homem ou mulher, papéis atribuídos, tarefas tidas por serem próprias do feminino ou do masculino, inculcadas no pensamento e no comportamento desde a infância, condicionando escolhas, limitando relações e, sobretudo, formatando o exercício do poder.

Falar de igualdade de género, não é apenas, pretender mudar a sociedade, mas transformar a sua forma de pensar. Não se trata de defender uma minoria que, na realidade não existe, já que o mundo se divide em partes, quase iguais, de homens e mulheres. Mas fazer um exercício de democracia, enquanto partilha de opiniões, construção de soluções na partilha do poder, diálogo e reconhecimento da diferença.

Sem extremismos, estão em causa direitos humanos e o reconhecimento de que o mundo é melhor quando todos temos acesso à palavra e podemos, em cooperação, construir uma sociedade mais justa e livre.

Porque é de liberdade que se trata.

Se a igualdade de género é uma face da democracia, sem sombra de dúvida que é, também, uma expressão da liberdade de ser, estar e participar.

Num mundo cada vez mais global, onde as tecnologias da comunicação abrem estradas de descoberta, nascer mulher não deveria ser uma condenação, como infelizmente ainda acontece, quando as mulheres são reduzidas à sua função reprodutiva, objeto de exploração ou discriminação.

A luta pelo sufrágio universal marcou o século XX, mas outros desafios se colocam no século XXI, em defesa da dignidade e de uma sociedade plural.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 8 janeiro 2019)

Zapping, uma qualidade feminina

 

As mulheres tem uma qualidade que as diferencia de muitos homens.

Não se trata de genética ou de personalidade, mas de uma capacidade que a exigência do quotidiano acabou por desenvolver em muitas mulheres: fazer zapping entre várias tarefas, algumas realizadas quase em simultâneo.

O dia de trabalho foi longo, as crianças já estão em casa, mas o tempo para apoiar nos trabalhos de casa é curto. Então, a mesa da cozinha transforma-se num espaço multifacetado. Enquanto se prepara os legumes da sopa, ajuda-se a filha nas contas e soletram-se palavras ao filho preocupado com uma Redação sobre "a castanha". No entretanto, a água já ferve na panela e, sem perder a atenção às dúvidas que vão sendo colocadas pelos filhos, aproveita-se para encher a máquina com roupa. Este "corridinho" doméstico é interrompido quando os dois irmãos se desentendem por causa de uma borracha e a mesa da cozinha está quase a tornar-se num campo de batalha.

Segue-se o banho, a arrumação do quarto, preparar a roupa do dia seguinte e assegurar que as mochilas ficam prontas, para que ninguém se atrase, quando for para sair de casa.

Finalmente, o pai chegou e é hora de jantar. Cada um pode contar o dia, as dificuldades ou os sucessos, mas nem sempre há espaço para ficar à mesa, sem preocupações, deixando a conversa fluir. São horas de deitar as crianças, aconchegar os lençóis e contar a história do costume, para logo a seguir estender a roupa, que entretanto já está lavada.

Cansada, a mulher atira-se para o sofá, incapaz de ver a série que tanto gosta sem adormecer, enquanto o marido se instala na poltrona para ouvir as últimas do futebol.

Esta é uma caricatura, uma ficção do que acontece em algumas casas, quando as tarefas do quotidiano são protagonizadas pelas mães, mulheres de sete braços que chegam a tudo em pouco tempo, mantendo uma organização onde a simultaneidade ou a sobreposição parecem a única forma de dar conta dos recados.

No final, resta pouco para si, fica uma nesga de tempo para olhar o espelho e ainda cuidar da pele, antes de adormecer.

A divisão desigual das tarefas domésticas não é um mito. Antes fosse!

É uma realidade quotidiana, na maioria das vezes incorporada nos gestos diários de forma naturalizada, espectável. De outra maneira, "não daria certo", dizem as próprias mulheres e, acrescentam os maridos, "elas são muito melhores a fazer isso".

A questão é que este desgaste diário acaba por pesar na autoestima e tem impacto na vida pessoal e profissional de muitas destas mulheres que, incapazes de por em causa o mundo da família, sempre em primeiro plano, abdicam de oportunidades profissionais, desinvestem na carreira e vão adiando projetos pessoais.

Os tempos atuais, as novas famílias que nascem num contexto de duplo emprego, não são compatíveis com esta desigual partilha das responsabilidades domésticas, mesmo que pareça mais fácil às mulheres, porque sempre foi esse o modelo de referencia, saltitar entre obrigações, como quem faz zapping entre canais de televisão.

Não basta que haja mais mulheres no espaço público, seja no trabalho ou na política, é preciso mais participação dos homens no mundo doméstico.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 13 Novembro 2018)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D