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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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04
Jan11

Deixar de se queixar dos outros…

sentirailha

“Uma das atitudes fundamentais do ser humano deve ser a de reconhecer em si, numa falta de compreensão ou de acção, a origem das deficiências que nota no ambiente em que vive; só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós.” (Agostinho da Silva, Glossas)

De nada nos serve clamar, eternamente, das dificuldades ou restrições financeiras, dos sacrifícios e das perdas, e apontar o dedo aos outros, fazendo-se vítima da pressão social ou da crise do Estado. Não será certamente dessa forma que iremos enfrentar e, sobretudo, ultrapassar essas dificuldades, se continuarmos a recusar dar a nossa quota-parte de ajuda, trabalho, iniciativa e criatividade, e minimizar o que falta a este mundo para ser melhor.

Queixamo-nos do custo de vida, mas não somos capazes de reduzir os níveis de consumo. Falamos mal dos gastos em folguedos, do luxo e do supérfluo, mas esgotaram as entradas para as festas de fim de ano.

Reconhecemos que vai faltar dinheiro e que o custo de vida vai aumentar, mas segundo consta, aumentaram os levantamentos em caixas multibanco no final do ano.

Afinal queixamo-nos de quê? Dos outros, dos governos, da crise? E o que fazemos para enfrentar essa crise? Fechamos os olhos e esperamos que passe? Fazemos de conta que não é connosco e ficamos a ver os que perderam o emprego, a quem é que cortam o salário ou quem é obrigado a pagar mais?

Início do ano é uma boa altura para voltarmos o dedo para nós mesmos e tomarmos consciência do que ainda não fizemos e que temos de apontar na agenda nova que acabamos de estrear; é tempo de definir novas metas, que sejam também objectivos de mudança para o ano que agora começamos.

Início do ano é altura certa para delinearmos um projecto construtivo, que exija de nós uma renovação de comportamentos, que implique um compromisso e, sobretudo, que nos faça menos críticos, quando se trata dos outros e mais quando está em causa o modo como vivemos.

Temos de ser exigentes connosco, para que a nossa coragem não seja empregue a combater mas a construir. Perdemos forças nessas lutas que têm apenas por objecto derrubar o outro, mas que nada lhe dá em troca e não são sinal de esperança.

O tempo de se lamentar já passou, porque, admitamos, ninguém gosta de saber que vai ter o seu salário reduzido, nem é agradável ouvir o anúncio dos aumentos dos preços ou dos custos que vamos passar a assumir para ter acesso a bens essenciais. Mas será que vale a pena continuar nessa posição derrotista? Ou não será que a hora é de levantar cabeça e de pensar? Sim, pensar antes de se decidir.

Início do ano é altura para reconhecer o quanto valemos e como o nosso contributo é essencial, e faz falta, para melhorar o mundo, a nossa terra, a nossa família ou a empresa onde trabalhamos.

Mas, só iremos melhorar esse mundo, quando “deixarmos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós; quando resolvermos fornecer a nós mesmos e ao mundo, o que nos parece faltar-lhe” (A. Silva)

07
Dez10

Chove, não me apetece sair!

sentirailha

A chuva cai forte contra as janelas. Os pingos escorrem como lágrimas nos vidros e a rua mais parece uma pequena ribeira.

Chove muito. Sabe bem, estar em casa, diante da lareira, no aconchego dos cobertores. Não apetece sair.

O noticiário anuncia inundações, sem-abrigo que morrem ao frio, ribeiras que transbordam das margens e destroem estradas. Mas continuo embrulhado na cama, sem vontade para me levantar, pensando que a chuva, música que me adormece, tem um lado frio, tremendo.

Abandono estes pensamentos tristes e refugio-me no valor da chuva, necessária para tornar verdes os pastos, fazer crescer as árvores e regar os canteiros de flores.

Mas o jornalista continua a lembrar-me que o mau tempo já fez mais uma derrocada e foram instaurados alertas laranjas em várias regiões do país.

Concentro-me no som da chuva a cair.

O mundo é sempre bem melhor, ou parece ser, quando não vemos as desgraças, não ouvimos falar dos que sofrem ou recusamos noticiais que não são agradáveis. É muito mais fácil viver no faz de conta, adormecendo ao som da chuva que bate nos vidros e deixando-se tomar pelo calor dos cobertores que tapam as orelhas e inebriam o espírito.

A chuva cai forte. As ruas parecem agora rios. Está na hora de levantar, preparar-se para sair, levar os filhos à escola, enfrentar o mundo do trabalho, as dificuldades, os desafios.

Ouvem-se as vozes dos mais novos que reclamam, “Mãe, não me apetece, eu podia faltar hoje, só hoje”. “Coitadinhos”, pensa a mãe, “eles até têm razão, podiam ficar em casa, com esta chuva!”

É nestas horas que se marca a diferença. Entre viver sob o lema do “apetece” ou do “enfrenta a vida”; entre preferir o conforto ou assumir que cada um de nós faz falta. É urgente educar a vontade e combater o comodismo, os espíritos instalados, as vidas enlatadas.

Porque a chuva não mata, diz-nos o carteiro todos os dias, quando deixa o jornal na caixa do correio, mesmo ouvindo a senhora reclamar que o papel ficou molhado.

A chuva não impede o trabalhador rural de ordenhar as vacas, nem o padeiro de sair de casa a meio da noite.

O que mata é o comodismo e essa vontade inebriante de se deixar ficar, preso ao meu bem-estar, debaixo dos cobertores; porque não me apetece, hoje vou faltar. Assim como assim eu não faço falta. O mais certo é nem se aperceberem que não estou.

A chuva continua a cair e o mundo não pára, mesmo para quem não quer participar e se julga dispensável. A realidade exige de todos um contributo, na escola ou no emprego, no campo ou na cidade, não podemos parar, muito menos por causa da chuva. Este não é o tempo para desistir, nem para desculpas cómodas e posturas fáceis.

Hoje não fui trabalhar e o meu filho não foi à escola, porque chovia muito.

A chuva bate nos vidros e a água escorre como lágrimas; o mundo triste, empobrece porque alguém desistiu. Não lhe apetecia.

(publicado no Açoriano Oriental de 6 Dezembro 2010)

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