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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

20
Mai15

Livre

sentirailha

O sentimento de liberdade é subjetivo, interior, imaterial. Mas, nesse quadro de referencias tão pessoais, tudo é relativo. Livre em relação a quê, a quem? Livre de quê ou de quem?

Dificilmente o ser humano se liberta de algo, sem logo a seguir se ligar a outra realidade, seja pessoa, hábito ou ideal.

Libertei-me do tabaco, mas agora não consigo passar sem umas pastilhas elásticas. Libertei-me do emprego, mas preciso de um horário para me organizar.

Realmente o que nos torna livres não é estarmos desligados dos outros ou do mundo, porque ninguém consegue ser livre sozinho. Nem tão pouco a liberdade se concretiza porque não temos compromissos, como poderá pensar o reformado que voluntariamente antecipou a sua saída do mundo do trabalho. Não tardou muito, comprometeu-se com outras realidades. Dirá que o fez sem ser por obrigação, desses compromissos não depende a sua sobrevivência, mas são compromissos na mesma. Alguém, na associação onde é voluntário, no curso que resolveu frequentar, passou a contar com ele, e isso compromete, é uma obrigação e a demonstração do seu sentido de responsabilidade cívica.

Livre mas ligado, talvez essa seja a fórmula humana de viver feliz.

Ligado aos outros, por afetos, por projetos. Ligado ao mundo, na procura de respostas e/ou de soluções. Ligado aos que ajudamos, de forma espontânea ou por sentido do dever.

Ninguém é livre, se estiver desligado, sozinho ou isolado.

Duvido que a liberdade acabe onde começa a liberdade do outro! Dessa forma não haveria sobreposição de espaços, de vidas e a minha liberdade seria mensurável.

A liberdade é sempre relacional, constrói-se sempre com um outro, por isso, nunca acaba nem começa, entrecruza-se. Mas perde-se, isso sim, quando destrói o outro, quando dessa relação resulta sofrimento, violência, desrespeito pela dignidade, humilhação. E quem assim age, deixa de ser uma pessoa livre, porque destruindo o outro, destrói-se a si mesmo, magoando a dignidade de alguém, perde a sua própria dignidade.

Aprender a gerir o livre arbítrio, como refere o código penal, é saber escolher e não poder fazer o que apetece, como se o mundo começasse e acabasse em mim.

Porque a liberdade faz-se com os outros, como o ser pessoa também.

Ser livre é procurar a dignidade, a humanidade no outro e, com isso, sentir-se mais digno e mais humano.

Livre para pensar, refletir o mundo e devolver imagens que possam ajudar alguém, que faça pensar ou "sair da caixa", como agora se diz. Porque não é livre quem se fecha num mundo acabado, sem futuro, sem horizonte, por medo, para se defender do confronto de ideias ou opiniões.

Não é livre quem apenas se preocupa com as aparências e as circunstâncias, quem passa a vida no jogo de cintura, sem dar conta que anda à roda sobre si mesmo e pouco ou nada consegue avançar.

Só é livre por dentro quem é capaz de se comprometer e de construir, sem ficar dependente ou se apoderar da obra que constrói. A liberdade abre o espírito à diferença e, tal como no Pentecostes, desbloqueia amarras, abrindo os porões ou portões do medo e da angústia.

Ninguém é livre se ficar encerrado num mundo de conveniências, sem se atrever abrir as portas do pensar e do sentir.

Tal como a ilha se liberta na espuma do mar, o ser humano é pelo espírito que descobre o mundo que o rodeia.

(texto publicado no Açoriano Oriental, 19 Maio 2015)

02
Mai10

As palavras libertam

sentirailha

A palavra é um instrumento com força de libertação, que confere cidadania e transforma um indivíduo em pessoa. Livre, a palavra incomoda os ditadores e todos aqueles que se acham donos do poder que os lugares lhes conferem. Quando não conseguem calar as vozes inconvenientes, recorrem à censura, mais ou menos declarada, feita com lápis azul ou regras que silenciam palavras incómodas.

A palavra tem força, porque carrega dentro de si um significado literal e a realidade que nomeia. É um revelador dos estados de alma, que veicula a intensidade das emoções e dos afectos, e pode ser utilizada como instrumento de pressão e persuasão, unindo ou separando as pessoas.

A palavra tem tal força que, retirar esse direito a alguém constitui uma forma de condenação ou penalização.

A palavra, dita ou escrita, liberta. Por isso, se há diferença que marca os tempos do antes e do depois de Abril de 1974 é o ganho em liberdade de expressão. Uma liberdade visível no modo como hoje se aborda a diversidade de pensamentos, se consideram as minorias sociais, se encara a multiculturalidade e se promove o direito à escola para todos.

Porque a palavra liberta, falar de cidadania é assumir, entre outros, o direito de criticar, denunciar, reivindicar e reclamar. Ninguém tem o dever de calar a injustiça ou a violência de que é vítima. Os tempos em que se engoliam as palavras e se apaziguavam conflitos abafando as vozes contrárias, têm de ser enterrados.

A palavra liberta. Liberta o homem e a mulher dos seus receios, equívocos e preconceitos, quantas vezes enraizados em falta de informação ou incapacidade de questionar e pedir esclarecimentos. Uma palavra não dita é uma dúvida que se avoluma.

Nos tempos que correm, apesar de vivermos com liberdade de expressão e de não precisarmos de esconder sentidos nas entrelinhas para passar uma mensagem, corremos outros riscos, particularmente o de esquecermos a força das palavras. Quando deixamos que os meios tecnológicos ocupem o tempo que deveríamos reservar à conversa, à tertúlia ou a um serão em família; quando mutilamos a língua escrita, para a fazermos encaixar em curtas mensagens electrónicas e sms de telemóvel, é a palavra que está em risco.

As palavras fazem parte do património cultural, que descobrimos desde o nascimento e que nos torna membros de um povo. Através delas mergulhamos no conhecimento. Com elas, descodificamos o mundo, assumimos uma identidade e um sotaque.

As palavras são sínteses de sentido, espelhos da alma onde o ser humano se revê. Janelas de conhecimento que se abrem, por exemplo, em relato de viagem, resultado de investigação, notícia ou texto de opinião.

Escrever palavras é um exercício de liberdade e os jornais são uma das suas expressões mais significativas. Por isso, registo e congratulo-me com a passagem dos 175 anos, recentemente festejados, do Açoriano Oriental. Um jornal que atravessou três séculos de história, divulgando palavras que libertam.

(publicado no Açoriano Oriental de 26 de Abril 2010)

18
Ago09

Interrupção "democrática"

sentirailha

Fui forçada a interromper a publicação de artigos de opinião no Açoriano Oriental por ser candidata a Presidente da Assembleia Municipal, pelo Partido Socialista, nas próximas eleições autárquicas de 11 de Outubro, p.f.

Porque entendo que a directiva da Entidade Reguladora da Comunicação Social não promove a democracia nem a transparência, entendi fazê-lo em texto que foi publicado pelo AO no dia 16 de Agosto, véspera da entrega das listas no Tribunal, por parte da candidatura a que pertenço.

Apesar deste impedimento, vou manter a coluna no blog, porque a escrita sobre a realidade que me rodeia é um direito que me assiste como cidadã.

 

 

De acordo com a directiva 2/2009 da Entidade Reguladora da Comunicação Social, os órgãos de comunicação social poderão suspender a colaboração de quem seja candidato nos próximos actos eleitorais.
De acordo com a mesma directiva, tal decisão deveu-se a queixas e pretende proporcionar “igualdade de oportunidades de acção e propaganda das candidaturas durante as campanhas eleitorais".
Como candidata a Presidente da Assembleia Municipal de Ponta Delgada pelo Partido Socialista sou obrigada a afastar-me e suspender a colaboração semanal que mantenho com o Açoriano Oriental, sem interrupções, há cinco anos, período durante o qual fui candidata em três actos eleitorais.
Porque estimo aqueles que são leitores habituais, devo-lhes uma explicação e partilho a minha opinião sobre esta orientação, que considero inapropriada e não defende, como pretende, a igualdade e a transparência. Inapropriada porque, acima de tudo, as crónicas ou textos de opinião são da responsabilidade dos seus autores, convidados a participar em nome individual e nunca para representar um partido, mesmo quando participam em listas eleitorais.
Aceitar ser candidato numa eleição é um acto de cidadania, que não deveria limitar a participação cívica, tal como entendo ser a colaboração com a comunicação social. Há mais conteúdos para além das campanhas! Há mais opiniões para além das que versam a actividade político-partidária. E mesmo nesse contexto, por ventura, a opinião de quem é candidato será mais frontal e verdadeira do que a de outros que, não o sendo, assinam colunas declaradamente tendenciosas e posicionadas do ponto de vista partidário.
Não vejo como a opinião pública dos cidadãos que participam como efectivos ou suplentes numa lista eleitoral e que são “colaboradores regulares em espaços de opinião” possa influenciar mais do que a que manifestam outros, militantes ou simpatizantes de partidos, mas não candidatos, que escrevem deliberadamente sobre a actividade política.
Diz ainda a directiva da ERC que assim se pretende minimizar a “visibilidade acrescida” que os órgãos de comunicação social conferem aos candidatos. Não acredito que o prestígio ou a notoriedade de uma pessoa se possa construir em um ou dois meses de escritos antes de uma eleição.
E que dizer do impacto na visibilidade, seja no elogio ou na difamação, que perpassa nos comentários dos “não candidatos”?
Não acredito na democracia que se constrói com controlo da liberdade de expressão, nem concebo a justiça de “regra e esquadro”, que mede os caracteres ou as palavras ditas a favor ou contra.
Quem decreta a suspensão da escrita ou da voz dos que se assumem com transparência, deveria antes recear a hipocrisia dos que se escondem detrás das palavras.
(publicado no Açoriano Oriental de 16 de Agosto 2009)

 

28
Abr09

Liberdade e responsabilidade

sentirailha

 

 Portugal conhece e experimenta há trinta e cinco anos o gosto da liberdade, o poder da participação e a necessidade de desenvolvimento, durante demasiado tempo limitadas.

A liberdade cria espaço interior, solta as amarras do medo e revoga o princípio que associava a felicidade à ignorância. “Mais vale não saber”, “mais vale não conhecer. Assim sofre-se menos”.

Como podia um país crescer quando a escola não era para todos? Como podia o país enriquecer quando amealhar significava guardar as economias debaixo do colchão ou emigrar para outras terras, mesmo que isso significasse trabalho pouco qualificado?

Eram outros tempos, onde a desigualdade social era uma característica inerente à relação entre géneros, gerações e estratos sociais. Perante as dificuldades, caberia aqueles que tivessem mais estudos, mais dinheiro e mais poder, encontrar a solução, nem que esta fosse marcadamente injusta e exigisse um esforço acrescido dos mais fragilizados.

Os tempos que correm são marcadamente difíceis para muitos. No entanto, longe vão os tempos em que dependeria das decisões de um qualquer messias político a solução para os actuais problemas das famílias e das empresas. Hoje essa responsabilidade é de todos. A liberdade que ganhamos com a democracia exige de todos um sentido de responsabilidade, a começar na forma como lidamos com as situações de dificuldade quotidianas.

Esperar que a crise se dissolva como um nó nas mãos de um experiente economista ou decisor, sem aproveitar para rever o caminho que percorremos é recusar admitir que erramos sempre que não apostamos na escolarização dos nossos filhos; é não querer assumir falta de visão quando não se investe na formação e qualificação profissional; e não reconhecer como errada e votada ao insucesso a estratégia que prefere a quantidade à qualidade.

Vivemos em democracia há 35 anos, no entanto, por vezes parece que não mudamos traços do passado, que nos fizeram subservientes e acomodados a vidas remediadas e simplórias, num país onde o analfabetismo não chocava, o ensino profissional era uma miragem e a qualidade um atributo raro.

Hoje, dificilmente aceitamos esse quadro que nos impediu de crescer. Mas, ao que parece, alguns ainda não compreenderam que a liberdade ou as liberdades que o regime democrático trouxe a este país são exigências de responsabilidade, são imperativos de cidadania que envolvem todos e cada um. Não depende apenas do poder instituído a resolução das nossas maiores dificuldades, não depende do carácter obrigatório, a escolarização dos nossos filhos, nem pode ser apenas um cumprir de calendário a formação que se exige de cada pessoa, para que se possa apostar na melhoria da qualidade do serviço que presta.

Infelizmente, ainda agora se ouvem vozes, entre as quais a de jovens que nasceram no pós 74, que recuperam a figura de um qualquer Salazar como salvador da crise, como terá questionado um jovem açoriano na sessão do Parlamento Jovem que decorreu na Assembleia da República.

Por ventura incapaz de reconhecer a sua própria responsabilidade, quem apela ao regresso de um ditador só pode ser alguém que não foi ensinado ou não aprendeu a ser responsável, a ser autónomo e a saber lutar pelos seus direitos, mas sobretudo, pela sua quota parte de participação activa na construção do futuro de todos.

(publicado no Açoriano Oriental de 27 Abril 2009)

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