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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Dia do pai

19 de Março, dia de São José, o pai da história cristã que assumiu a paternidade humana de um filho com um projeto divino.

Mas não será esse o sentido da paternidade ou até da maternidade?

Mais do que uma relação biológica, genética, o laço que se cria entre um pai e um filho é de outra natureza. Envolve a capacidade de se dar, atender, acolher e proteger; exige ser um exemplo e uma referência mas, ao mesmo tempo, precisa de companheirismo e amizade para ser próximo e acessível.

Longe vão os tempos dos pais ausentes, vistos como a autoridade máxima, a quem competia julgar as situações mais graves porque, as outras, as mães resolviam à parte, quantas vezes sem que os pais soubessem, "Não digas nada ao teu pai, que eu te deixei fazer isso!".

O pai de hoje quer-se mais próximo, mais presente, mais preocupado com as necessidades dos filhos, desde os trabalhos de casa às namoradas, dando resposta às dúvidas sobre o texto de português ou as escolhas profissionais.

A paternidade é, como todas as relações humanas, construída pelos seus protagonistas. Por isso, é cada vez mais importante, para os homens, reconhecer e assumir o papel de cuidadores e a quota parte de responsabilidade na educação parental. Uma responsabilidade que não é uma obrigação, penosa e difícil, mas uma necessidade intrínseca de querer marcar a vida filhos, desde que nascem.

Não tem sido fácil, e talvez até muito morosa, a libertação do pai da figura secundária que tudo delega numa mãe protetora, única cuidadora, atenta aos pormenores. Por vezes, são as mulheres que os afastam dos cuidados aos mais pequenos: "deixa que eu faço! Isso não é coisa para homem!". E assim, eles vão sendo dispensados de mudar as fraldas, dar biberões, ir à consulta de rotina ou falar com a professora.

A lei vai refletindo, aos poucos, o reconhecimento da paternidade como relação que se constrói no cuidar, na presença diária, na comunicação afetiva.

Ontem, a licença era apenas "maternal", hoje é "parental". Ontem, o pai tinha apenas 5 dias, hoje pode ter até 25, os primeiros 15 obrigatórios, os outros dez, por opção do próprio. Ontem a licença pós-parto era exclusivamente feminina, hoje pode ser partilhada.

Aos poucos, os pais vão assumindo um lugar mais próximo, mais presente desde a primeira hora, em cuidados que partilham com as mães. E, assim, a parentalidade vai sendo construída como vínculo coletivo, transformando o nós casal em nós-família.

É frequente analisar as transformações na família, com base na alteração do papel da mulher, mais ativa profissionalmente, com percurso escolar mais longo e motivada por objetivos de carreira. Mas esta alteração só pode ser incorporada, de forma equilibrada na vida familiar quando, em paralelo, os homens, até ontem ligados ao espaço público, aos lugares de representação e de chefia, reivindicarem o seu lugar na família e assumirem a paternidade como dimensão fundamental da sua identidade. Ser pai não é um acaso da natureza mas, uma escolha relacional que dá direito a estar presente nos pequenos e nos grandes momentos da vida dos filhos.

Ser pai é ser exemplo, porto seguro e ter a mão firme de um amigo.

Agradeço à vida o pai que tive e tenho.

(Texto publicado no jornal Açoriano Oriental, 19 março 2019)

 

Dia do Pai

É bom saber que ainda não se lembraram de mudar o dia do pai, que por tradição continua a ser comemorado no dia de São José, patrono dos pais, mas também patrono dos companheiros das mães. Porque um pai há muito deixou de ser aquela figura distante, que repreende nas faltas graves e quase sempre vive longe dos pequenos problemas domésticos.

Um pai é um adulto próximo, que se interessa pelos problemas dos filhos na escola como na vida amorosa, que dá conselhos e orientações e que, melhor às vezes do que a mãe, consegue perceber os esquemas que as crianças ou os jovens inventam, para conseguirem o que pretendem. Quantas vezes as mães são enganadas por estarem demasiado preocupadas em chegar a tudo, em resolver todas as dificuldades.

Os pais, aparentemente mais distantes, observam os gestos, as pequenas mentiras e não se deixam apanhar nas armadilhas ingénuas que as crianças inventam, porque não lhes apetece estudar, têm um novo jogo no computador, gostavam de ir mais tarde para a cama.

É destes pais que os jovens precisam. Dos que estão atentos e sabem corrigir, dos que têm a palavra certa, quando os filhos vacilam, duvidam ou querem desistir.
Pais carinhosos que não têm vergonha de um abraço, de um carinho feito em público, que estendem os braços e dão colo, que piscam o olho e sorriem.

Não fazem falta aqueles outros pais que vivem sempre cheios de trabalho, fechados nos seus pequenos mundos de afazeres, incapazes de brincar ou de partilhar uma história e qua a toda a hora descartam responsabilidades: a tua mãe é que sabe, ela é que trata disso. Agora não, não me aborreças com essas coisas, que eu tenho muito que fazer. Não tenho tempo para ti, estou muito ocupado.

Ser pai está longe de ser o progenitor, provedor de sustento ou garantia do nome de família. Esse era o pai de outros tempos, quando a sociedade parecia dividida em duas metades. De um lado as mulheres cuidadoras, vivendo no mundo da casa e do outro, os homens, ganhando o sustento para garantir a sobrevivência.

A sociedade actual é plural, faz-se com a partilha de tarefas e de responsabilidades, exige projetos de vida integrados, onde haja lugar para o coletivo, mas onde a individualidade, sem individualismo, também se possa desenvolver.

Não há por isso lugar para egoísmos, para pequenos mundos de homens que pouco ou nada sabem como cuidar de um filho, porque nunca o sossegaram na hora do sono ou se debateram com uma colher de papa espirrada no rosto, devolvida ao prato vezes sem conta.

Não há lugar para pais ausentes, que não têm tempo na agenda para ir à escola saber das notas ou para acompanhar um filho numa consulta médica.

Ser pai também é isso, é ser presente em momentos de fragilidade, de dúvida dos filhos e conseguir ser forte, sem nunca deixar de ser firme e terno. Ser pai, na minha memória de filha é ser doce e ser grande por dentro, um amigo que escuta sem deixar de ser uma referência, um exemplo.
Alguém que educa e disciplina, que perdoa mas também é capaz de pedir desculpa, quando reconhece que julgou mal ou agiu de forma precipitada.

Dia do pai, dia para os homens descobrirem ou afirmarem como a relação com os filhos os transformou em melhores pessoas.

Olhar azul

Se pudéssemos fotografar a vida de uma pessoa, talvez a imagem fosse semelhante ao traço de luz de uma foto noturna tirada quando dezenas de veículos circulam a grande velocidade. Entre os muitos traços de luz, cada vida é apenas um, mais ou menos intenso, que a certa altura se apaga, enquanto outros avançam.

É efémera a luz de uma vida, mas quem dela beneficia sabe o quanto significa em termos de força, presença, orientação.

Quando esse traço de luz se apaga, fica um sabor amargo de ter de continuar a viagem sem poder partilhar essa força anímica, mas com a plena certeza de a trazer gravada no coração, na mente, em memórias que não se apagam, num sorriso que não se esquece e num olhar tranquilo, um olhar azul.

 

Nos teus olhos, aprendi o que era amar,

E a ter força para caminhar.

No teu olhar, descobri a firmeza e a doçura,

De que precisava para viver e lidar com a dificuldade em avançar.

Há poucos olhos como os teus,

Onde a força se mistura com a ternura,

Onde a certeza se transforma em apoio,

E a repreensão é sempre ajuda.

Há poucos olhares como os teus,

Onde não há violência, mas chamadas de atenção,

Onde não há agressão, mas compreensão.

Nos teus olhos, aprendi a ser filha e a ser mulher,

A ser mãe e amiga,

Porque nunca me recusaste uma bênção ou uma palavra,

Estavas ali, sempre, para me ouvir com esses olhos,

Atentos ao que te dizia, seguindo o meu pensamento como guia.

No teu olhar azul, deixaste-me mergulhar,

Todas as vezes que me senti sozinha e perdida,

Foste o meu horizonte, a minha meta, o meu porto refúgio.

No teu olhar, aprendi a nadar,

Primeiro a medo, depois segura que nunca me deixarias afogar,

Mesmo que por vezes me largasses,

E me deixasses afundar,

E sentisse que, estando tu ali, eu me podia abandonar.

No teu olhar azul,

Aprendi a ser, a crescer e a dar,

Porque nunca fechaste essa porta, esse teu mar.

Nunca me disseste, não podes, mas me fizeste pensar.

Como eu gostava que nunca se apagasse esse olhar,

Que me enche a alma de ternura e força,

E me faz avançar.

Obrigada, olhar azul.

 

(Em memória do meu pai de olhar azul, José Manuel Lalanda Gonçalves)

(publicado no Açoriano Oriental de 30 Janeiro 2012)

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