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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Dia do Pai

É bom saber que ainda não se lembraram de mudar o dia do pai, que por tradição continua a ser comemorado no dia de São José, patrono dos pais, mas também patrono dos companheiros das mães. Porque um pai há muito deixou de ser aquela figura distante, que repreende nas faltas graves e quase sempre vive longe dos pequenos problemas domésticos.

Um pai é um adulto próximo, que se interessa pelos problemas dos filhos na escola como na vida amorosa, que dá conselhos e orientações e que, melhor às vezes do que a mãe, consegue perceber os esquemas que as crianças ou os jovens inventam, para conseguirem o que pretendem. Quantas vezes as mães são enganadas por estarem demasiado preocupadas em chegar a tudo, em resolver todas as dificuldades.

Os pais, aparentemente mais distantes, observam os gestos, as pequenas mentiras e não se deixam apanhar nas armadilhas ingénuas que as crianças inventam, porque não lhes apetece estudar, têm um novo jogo no computador, gostavam de ir mais tarde para a cama.

É destes pais que os jovens precisam. Dos que estão atentos e sabem corrigir, dos que têm a palavra certa, quando os filhos vacilam, duvidam ou querem desistir.
Pais carinhosos que não têm vergonha de um abraço, de um carinho feito em público, que estendem os braços e dão colo, que piscam o olho e sorriem.

Não fazem falta aqueles outros pais que vivem sempre cheios de trabalho, fechados nos seus pequenos mundos de afazeres, incapazes de brincar ou de partilhar uma história e qua a toda a hora descartam responsabilidades: a tua mãe é que sabe, ela é que trata disso. Agora não, não me aborreças com essas coisas, que eu tenho muito que fazer. Não tenho tempo para ti, estou muito ocupado.

Ser pai está longe de ser o progenitor, provedor de sustento ou garantia do nome de família. Esse era o pai de outros tempos, quando a sociedade parecia dividida em duas metades. De um lado as mulheres cuidadoras, vivendo no mundo da casa e do outro, os homens, ganhando o sustento para garantir a sobrevivência.

A sociedade actual é plural, faz-se com a partilha de tarefas e de responsabilidades, exige projetos de vida integrados, onde haja lugar para o coletivo, mas onde a individualidade, sem individualismo, também se possa desenvolver.

Não há por isso lugar para egoísmos, para pequenos mundos de homens que pouco ou nada sabem como cuidar de um filho, porque nunca o sossegaram na hora do sono ou se debateram com uma colher de papa espirrada no rosto, devolvida ao prato vezes sem conta.

Não há lugar para pais ausentes, que não têm tempo na agenda para ir à escola saber das notas ou para acompanhar um filho numa consulta médica.

Ser pai também é isso, é ser presente em momentos de fragilidade, de dúvida dos filhos e conseguir ser forte, sem nunca deixar de ser firme e terno. Ser pai, na minha memória de filha é ser doce e ser grande por dentro, um amigo que escuta sem deixar de ser uma referência, um exemplo.
Alguém que educa e disciplina, que perdoa mas também é capaz de pedir desculpa, quando reconhece que julgou mal ou agiu de forma precipitada.

Dia do pai, dia para os homens descobrirem ou afirmarem como a relação com os filhos os transformou em melhores pessoas.

Olhar azul

Se pudéssemos fotografar a vida de uma pessoa, talvez a imagem fosse semelhante ao traço de luz de uma foto noturna tirada quando dezenas de veículos circulam a grande velocidade. Entre os muitos traços de luz, cada vida é apenas um, mais ou menos intenso, que a certa altura se apaga, enquanto outros avançam.

É efémera a luz de uma vida, mas quem dela beneficia sabe o quanto significa em termos de força, presença, orientação.

Quando esse traço de luz se apaga, fica um sabor amargo de ter de continuar a viagem sem poder partilhar essa força anímica, mas com a plena certeza de a trazer gravada no coração, na mente, em memórias que não se apagam, num sorriso que não se esquece e num olhar tranquilo, um olhar azul.

 

Nos teus olhos, aprendi o que era amar,

E a ter força para caminhar.

No teu olhar, descobri a firmeza e a doçura,

De que precisava para viver e lidar com a dificuldade em avançar.

Há poucos olhos como os teus,

Onde a força se mistura com a ternura,

Onde a certeza se transforma em apoio,

E a repreensão é sempre ajuda.

Há poucos olhares como os teus,

Onde não há violência, mas chamadas de atenção,

Onde não há agressão, mas compreensão.

Nos teus olhos, aprendi a ser filha e a ser mulher,

A ser mãe e amiga,

Porque nunca me recusaste uma bênção ou uma palavra,

Estavas ali, sempre, para me ouvir com esses olhos,

Atentos ao que te dizia, seguindo o meu pensamento como guia.

No teu olhar azul, deixaste-me mergulhar,

Todas as vezes que me senti sozinha e perdida,

Foste o meu horizonte, a minha meta, o meu porto refúgio.

No teu olhar, aprendi a nadar,

Primeiro a medo, depois segura que nunca me deixarias afogar,

Mesmo que por vezes me largasses,

E me deixasses afundar,

E sentisse que, estando tu ali, eu me podia abandonar.

No teu olhar azul,

Aprendi a ser, a crescer e a dar,

Porque nunca fechaste essa porta, esse teu mar.

Nunca me disseste, não podes, mas me fizeste pensar.

Como eu gostava que nunca se apagasse esse olhar,

Que me enche a alma de ternura e força,

E me faz avançar.

Obrigada, olhar azul.

 

(Em memória do meu pai de olhar azul, José Manuel Lalanda Gonçalves)

(publicado no Açoriano Oriental de 30 Janeiro 2012)

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