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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Em defesa do património

Muitos de nós, conscientes e apaixonados pela cidade de Ponta Delgada, interrogamo-nos sobre o que fizeram, ou estão fazendo, do antigo mercado? Que alterações estão a ser realizadas no centro histórico, em particular na praça do município? Porque foi retirada uma estátua e colocada outra no adro do santuário da Esperança? Como pode um particular alterar a fachada de azulejos de um edifício centenário? Como tudo isto acontece, sem se ouvir as pessoas?

O adro de uma igreja, a praça do município, a fachada de um edifício com história, não são pertença apenas dos seus proprietários, porque nos contam a história da comunidade e integram o seu património.

Património é uma palavra cheia de história e memória, um vocábulo com raiz na palavra “pais” que nos remete para a herança que recebemos das gerações anteriores.

Por isso, todas as vezes que esse património é destruído, adulterado ou preservado, a geração que o faz mostra o valor que lhe atribui.

Falar de património, não passa apenas por estruturas edificadas, monumentos, castelos ou palácios. Basta ver o que a Unesco classifica como património, para concluir da importância do valor subjetivo e simbólico, imaterial, que lhe está associado, como acontece com o reconhecimento de rituais, danças, formas de ser e fazer ou cantares, como é o caso do Fado em Portugal.

A manutenção do património é, sem dúvida, um dever comunitário e um compromisso implícito para quem assume responsabilidades políticas, na defesa do bem comum. Nada do que nos deixaram nos pertence, apenas somos guardiães desses bens, da cultura material ou imaterial, que nos distingue dos outros.

Defender e preservar o nosso património não significa recuar ou parar no tempo, mas reconhecer a estrutura identitária que nos molda como povo, ou seja, a cultura, a história e as pessoas que nos antecederam.

Sempre que, por razões de funcionalidade ou melhor adaptação às exigências do presente, é necessário intervir no património edificado, seja uma casa rural ou um edifício classificado, quem o faz tem de o estudar, conhecer e participar essa intenção à comunidade, porque o bem em causa não lhe pertence, mas faz parte da herança que todos recebemos.

Alguns apenas consideram necessário o estudo do património, quando se trata de objetos arqueológicos ou com muitos séculos de vida. Não, o património é todo o lugar, espaço, saber ou equipamento que nos permite melhor conhecer quem somos e porque estamos aqui, porquê a nossa cidade tem esta forma ou esta ocupação urbana. Ler o património é como reconhecer numa carta, a vontade de quem a escreveu. Assim acontece com a herança recebida.

Pode acontecer que a intervenção seja, “supostamente”, para melhorar o quotidiano das pessoas, mas mesmo nessas ocasiões nenhum responsável político pode achar que tem o direito de por e dispor, construir ou destruir, avançar num projeto ou alterá-lo a meio do processo. Todas as intervenções que “mexam” com o património têm de ser objeto de concurso, discussão pública, o mesmo é dizer, respeitar a história, envolver os cidadãos e ouvir a sua sensibilidade.

O património não é uma cláusula de legislação nem uma questão que alguns insistem em trazer à discussão pública, representa defender quem fomos e somos e o que queremos deixar a quem receber, de nós, esse património.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental, de 4 de julho 2023)

Viola da Terra

O dedo polegar e o indicador ponteiam as cordas da viola da terra. De vez em quando, a mão do tocador toca em rasgado. Faz-se silêncio...porque o som da viola da terra preenche o momento e enche-nos de emoção.

O som desta viola é diferente. Mistura a doçura com um som metálico, intenso.

O dedo polegar ponteia os primeiros sons da “Saudade” e logo se abre o cortinado roxo, que cobria o coração.

Conhecida também como a viola dos dois corações, este instrumento, de doze ou quinze cordas, faz parte família das violas de arame. Há quem diga que estes dois corações, virados de costas, são símbolo do amor impossível, imagem reforçada pela linha umbilical que os une num losangulo ou lágrima.

A qualidade de uma viola depende da arte do seu construtor e da sonoridade que o tocador consegue arrancar ao toque ou pancada da mão.

 A sua forma em oito, recorda o corpo humano, não fossem os lados designados por “ilhargas”, a escala de “braço” e a abertura no tampo, de “boca”.

Rafael Carvalho, professor de “viola da terra” no conservatório de Ponta Delgada, orgulha-se de ensinar no único estabelecimento de educação musical do país onde, desde 1982, se aprende a tocar numa viola de arame.

Antes, quase todos aprendiam de ouvido, mas chegou-se a temer que se perdesse esta tradição, por falta de quem tocasse e, sobretudo, por falta de quem quisesse aprender. Em São Miguel, valeu a mestria de uns poucos, como o Sr. Carlos Quental da Maia, e a paixão de alguns jovens por esta sonoridade, para recuperar o gosto e o interesse pela Viola da Terra.

Se antes não havia festa sem viola da terra, hoje os grupos folclóricos precisam de músicos, para poderem dançar as modas tradicionais, à semelhança dos nossos antepassados, que armavam um balho no fim da desfolhada, numa dominga do Espírito Santo ou pelo dia do padroeiro.

O som da viola da terra liga as letras às danças, as pessoas à comunidade. Mas, hoje a sua sonoridade pode ser explorada em outro tipo de peças musicais, como acontece no Conservatório.

Hoje, fruto do empenho e da paixão de alguns músicos, a Região possui uma Associação que promove a viola da Terra, tem tocadores em quase todas as ilhas e existem jovens construtores de instrumentos de excelência.

A viola da terra não é uma viola qualquer.

Ouvir o som deste instrumento é sentir o amor à terra. Tanto “canta” alegremente uma Chamarrita do Pico ou um Balho Furado de São Miguel, como “chora” a Saudade ou os Olhos Negros da Terceira.

Esta viola é da terra, porque é do nosso povo, das nossas gentes. Por isso, está presente no Brasil ou em Cabo Verde porque, para onde fosse um açoriano, lá ia a viola da terra, como tão bem pintou Domingos Rebelo no quadro “os emigrantes”.

Há que homenagear quem nunca desistiu de tocar e de ensinar a arte da viola da terra. Mas esta não pode ser a paixão de um músico, mas o dever de uma região em defender e promover o património cultural que a define e identifica. Não podemos deixar que as nossas tradições corram o risco de desaparecer, por falta de quem as transmita.

A viola da terra, presente em todas as ilhas, é um traço do ser açoriano, uma sonoridade que nos irmana na mesma Cultura, destruindo barreiras e bairrismos.  

A música é uma linguagem universal, que une na diversidade e aproxima na distância.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 8 junho 21)

Oh heroína cidade!

O tema das Sanjoaninas de 2018 foi o liberalismo e o papel de Angra do Heroísmo na História de Portugal. Uma página da história interpretada por algumas das marchas que desfilaram pela Sé, ao som de palmas entusiastas.

A Marcha dos Coriscos, fiel ao tema proposto, contagiou a assistência com este refrão: "Oh heroína cidade, foste capital da nação! Lutaste pela liberdade, Rochedo de salvação!; Rochedo de Salvação, nas lutas da realeza; venceste com o coração, foste Ilha Fortaleza."

A história tem de ser vivida, se não, é esquecida. Alguns talvez não saibam porque foi construído o obelisco da Memória, que se ergue no alto da cidade de Angra?

Este é um símbolo das lutas liberais e da vitória sobre o Absolutismo, que valeu a Angra o nome de Heroísmo.

Dar sentido ao património, material e imaterial, é fundamental para as gerações mais jovens aprenderem a conhecer o povo a que pertencem e os valores pelos quais lutou no passado. Valores que, ainda hoje, nos movem, como é o caso da liberdade.

Viver em liberdade nunca é uma dádiva ou uma garantia mas, será sempre uma conquista perante poderes absolutos, líderes ditadores ou indivíduos autocratas.

Nada está garantido, nem nada é gratuito, quando se trata da defesa de princípios.

Por isso, é importante relembrar a história, que se esconde em edifícios, documentos e na vida de personagens, muitos dos quais dão nome às ruas por onde passamos.

O pior que podemos fazer a esse legado histórico é ignorar, enterrar ou desvalorizar, como se tudo pudesse começar do zero, a cada geração que passa.

Fazer memória, do percurso histórico de um povo, é aprender com o passado a dar sentido ao futuro, que vamos construindo no presente.

As Sanjoaninas apelam a esse exercício, de cada vez que escolhem uma página de história para tema das festas, misturando conhecimento com alegria, trazendo a seriedade do passado para a folia do presente.

Precisamos desta alegria que se fundamenta na identidade histórica e cultural que nos molda como povo.

As Sanjoaninas são festas terceirenses, mas porque apelam ao sentimento, promovem a alegria e entusiasmam quem nelas participa, transformam-se em festas açorianas, onde todos se sentem desejados e acolhidos.

Há nove anos que a Marcha dos Coriscos participa nestas festas e são um exemplo de como a alegria não é património de nenhuma ilha ou comunidade. É muito fácil acabar com bairrismos ou divisões entre ilhas, quando respeitamos a cultura de cada uma e descobrimos que a união das diferenças nos torna mais ricos.

A história nunca deve dividir, mas antes fazer memória do que é um povo.

Só ligados pelo afeto, conseguimos transformar as tradições, que nos distinguem, em património comum e perceber que a açorianidade não vem no sangue. Antes é um sentimento que se cultiva na descoberta da diversidade das ilhas, uma ligação que nos aproxima e une, feita de diferentes sotaques e sabores, tecida de eventos e emoções, que nos torna irmãos e faz partilhar uma terra que nos serve de berço e sepultura.

Faz falta falar e ensinar sobre a história dos Açores! E, nada melhor do que aprender em ambiente de festa.

 (texto publicado no Açoriano Oriental de 27 junho 2018)

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