Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

O Natal vai passar por aí

Por entre os vidros das janelas veem-se luzinhas que brilham numa árvore colocada ali, de propósito, para que se veja da rua. Mais à frente, um pai natal surge pendurado, do lado de fora de uma casa, espreitando para dentro, trazendo nas costas a saca dos desejos, de crianças e adultos. Todos esperam receber um bem, uma notícia ou algo de bom, venha de onde vier, do Pai Natal ou do Menino Jesus. 

No Natal as casas abrem-se ao mundo, renovadas e brilhantes.

Fizeram-se as limpezas da festa; cheira a óleo de cedro e a cera; as cortinas foram mudadas e as paredes lavadas. Está tudo pronto, mesmo quando não se espera que alguém apareça.  

Na mesa, há figos ou chocolates e um licor caseiro. A tradição dita que, nestes dias, o “Menino mija” em cálices de vidro que transbordam de licor de tangerina ou de vinho abafado.

No Natal as casas cheiram a cedro e a velas acesas; sente-se o calor da lareira ou das mantas que cobrem as pernas, mesmo que não faça frio. Apetece uma caneca de chá com biscoitos ou uma fatia de bolo rei e, sabe tão bem ficar a ver um desses filmes românticos, que passa na televisão, onde se descobre o “happy end”, antes mesmo de acontecer.

No Natal, ficamos todos mais sensíveis. Fazem falta os abraços e os risos das crianças e é difícil não ficar emocionado, quando se levantam os copos, para recordar quem partiu ou não pôde vir à festa e, por isso, sobram lugares na mesa.

O aconchego é bom! Mas! este é um tempo de passagem!

Um tempo para deixarmos que o amor passe por nós e nos toque com a força da solidariedade e olhemos à volta, para quem vive com muito mais dificuldades.

É certo que devíamos concretizar essa frase tão batida, de que o Natal é quando um homem quiser, mas, infelizmente, essa vontade de ajudar só nos “bate” em Dezembro. Não faz mal. O importante é mesmo abrir o coração e sentir o efeito benéfico da brisa que entra e nos obriga a olhar para fora de nós. E, ao contrário dos convites ao consumo desenfreado, que nos alienam, as dificuldades dos outros fazem-nos sentir frágeis, vulneráveis e mais sensíveis.

Podemos criticar as iniciativas, privadas e públicas, que oferecem cabazes de bens essenciais, porque são gotas num oceano de dificuldades. Mas, talvez possamos pensar no bem que isso pode representar para algumas famílias, para quem essa dádiva abre um parêntesis de conforto, numa narrativa dramática que, infelizmente, irá regressar depois das festas, se mais nada acontecer e outras respostas não forem dadas.

Natal é tempo de “portas abertas”, de sorrisos e votos de “Boas festas”.

Deixar que passe por cada um essa “boa onda” que aproxima, esse sentimento de comunidade que reúne e transforma os conflitos em paz, os egoísmos em solidariedade.

Natal é tempo de convites: passa lá por casa! Vem ver o meu Menino Jesus! A porta está sempre aberta!

O mundo seria bem diferente, se pudéssemos e quiséssemos manter as portas abertas. Ao invés, desconfiamos, temos medo, pomos ferrolhos e alarmes, grades nas janelas e trancas nas portas, das casas e dos corações.

A Paz só acontece quando abrimos a porta do coração para escutar os outros. E como faz falta a Paz neste tempo de guerras, onde morrem tantas crianças.

A Paz não é silêncio, nem mesmo “pausa humanitária”, mas entendimento e diálogo.

A Paz só acontece no Natal, quando as casas e os corações, tal como no estábulo de Belém, são lugares de passagem que acolhem o milagre do Amor.

 (texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 19 dezembro 2023)

Paz interior

A Paz é um valor absoluto, expressão máxima da felicidade, do entendimento entre os seres humanos ou povos.

Pela Paz já se assinaram tratados e se fizeram cimeiras, mas nada que fosse realmente eficaz, porque se fecham acordos de consenso, mas mantêm-se interesses que conflituam.

A Paz não se conquista com leis, tratados ou cimeiras. De nada serve apelar à paz entre os povos, se esta não existir na vida de cada pessoa ou país.

A paz interior é a base do entendimento e isso significa paz de espírito, o mesmo é dizer, viver com consciência do que realmente é importante, prioritário e essencial.

É preciso ser coerente. Por exemplo, quando se diz "deem a cana e não o peixe", aponta-se o dedo a quem tem interesse em receber o peixe, pronto a comer, e nunca se reconhece que, muitas vezes, quem dá esse peixe também procura ganhos, prestígio e poder.

Enquanto os governos ou as pessoas não agirem em consciência, reconhecendo a incoerência entre o seu discurso e a sua ação, a paz não passará de uma palavra bonita.

Como referiu no Parlamento Europeu o Dalai Lama, "para uma vida feliz, devemos dar valor ao factor humano, à harmonia e à paz de espírito", e não aos "valores materiais".

É na coerência entre palavra e comportamento que se descobre e se alcança a paz interior.

Não basta falar de liberdade, respeito, confiança ou solidariedade e depois mascarar o comportamento de gestos de conveniência, oportunismo, evitando beliscar interesses, que minam a coerência do discurso.

É preciso romper com a paz podre e agitar as consciências e a acomodação. Enquanto o Dalai Lama apontava o dedo ao silêncio comprometido da Europa na sua relação com a China, o Papa Francisco visitava os cuidados intensivos de neonatologia e os cuidados paliativos de um hospital. A sua presença, não programada, representou um sinal concreto, de que não basta falar de proximidade é preciso chegar-se aos outros. Não basta dizer "coragem", é preciso ouvir o desespero de quem sofre.

A paz interior não é amorfa, indiferente ou alienada. Não se consegue afastando quem incomoda, mas pelo contrário é fruto da sensibilidade de quem não é indiferente ao sofrimento humano.

Estar em paz com a sua consciência significa sentir-se em harmonia, diante da humanidade e da natureza, ter a noção clara do essencial e da essência da vida. E, entre erros e recomeços, nortear a sua ação pelo respeito do ser humano. Porque a pessoa não é um valor transacionável, não está cotado nas bolsas nem pode ser objeto de troca, venda ou empréstimo.

O mundo, dito desenvolvido, não terá paz, enquanto alimentar guerras noutros países ou ficar indiferente perante as injustiças, a discriminação e o sofrimento humano. Tal como ninguém conseguirá viver em harmonia, se estiver em conflito com os outros.

Para haver Paz é preciso ter coragem para "baixar a guarda" e ser o primeiro a estender a mão.

Dificilmente se consegue a paz sem diálogo e isso significa descer do pódio da arrogância e reconhecer os erros, como sugeriu o Dalai Lama à Europa, a propósito da indiferença dos europeus perante os direitos do povo tibetano.

Não reconhecer os erros engrossa as paredes do ego, engorda a falsidade e faz diminuir a honestidade e a paz interior.

E não havendo paz individual, dificilmente haverá paz coletiva.

A Paz só transforma o mundo, se primeiro transformar o ser humano.

 (artigo publicado no Açoriano Oriental, Setembro 2016)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2009
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2008
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2007
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D