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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Podar

Segundo o almanaque agrícola, Fevereiro é o mês das podas, uma atividade necessária para que as plantas e, sobretudo, as árvores possam crescer de forma equilibrada, ganhar forma e dar mais e melhor fruto, quando chegar o verão.

Podar é sem dúvida uma arte que exige conhecimentos, técnica e capacidade de antecipar o impacto que terá sobre o crescimento da planta. Não deixam de ser feridas, os cortes que vão ser feitos, mas são necessários e, uma vez cicatrizados, irão compensar pelo crescimento renovado que daí resultará.

Aliás, na linguagem agrícola, podam-se em geral galhos "ladrões", ou "cavalos", que roubam ou retiram força à planta e não são férteis. São desnecessários e devem ser amputados.

Alguns dirão, porque motivo falo de podas de árvores nesta altura do ano. Não será certamente apenas por estarmos ainda no mês de Fevereiro, mas porque esta atividade agrícola pode ser vista como simbólica do que os cristãos associam à quaresma, ou do sentido que este período, pós carnaval, pode representar para alguns.

Também no quotidiano humano, há necessidade de limpar, reorganizar e reordenar, diria mesmo podar. Há ramos que deixamos crescer que não fazem falta, há muito que os devíamos ter retirado; são os que nos tornam preguiçosos, pouco motivados para arriscar, e nos fazem estar sempre lastimando do que não temos e nos tornam incapazes de valorizar as nossas competências e atributos, respondendo a qualquer desafio com a frase esfarrapada do "não vale a pena; já não tenho idade para isso, é tarde de mais!".

Há momentos na vida que é importante e necessário cortar radicalmente com aquilo que nos torna infelizes, mas que não temos coragem de assumir. Há dentro de cada ser humano um projeto bonito, que pode dar frutos se este souber conduzir a vida sem desperdícios.

Quando analisamos o percurso de alguém, que diz "não ter tido sorte", "não encontrar saída", alguém que desistiu de lutar e de arriscar mas que, ainda assim, espera que alguém lhe apareça na vida, que surja o emprego ideal, "há-de aparecer, um dia, talvez!", só há uma conclusão a tirar: a infelicidade está dentro dessa pessoa, que passa a vida a culpar o azar ou a falta de oportunidades.

As oportunidades fazemo-las nós, por vezes à custa de podar alguns ramos que nos roubam energia e nos tornam preguiçosos e desmotivados. Para que uma árvore dê boa fruta, não basta plantar e ficar à espera. Os mais experientes ensinam-nos que é preciso, por vezes, enxertar-lhe uma outra espécie que melhore a qualidade, podar na altura certa, quando a árvore é capaz de o suportar, respeitando o seu crescimento e o seu ciclo de maturação.

Sem dúvida que podemos aprender com a natureza a descobrir a humanidade, o sentido mais profundo do que nos torna pessoas, identificadas, com projetos de vida, capazes de nunca desistir. Quantas árvores pareciam mortas e renasceram depois de uma poda bem feita?!

Assim pode acontecer com quem julga que a sua vida acabou. Mudar é necessário, rever caminhos é fundamental, fazer escolhas uma obrigação e, sobretudo, não desistir de si, acreditar e ter vontade de viver é o que nos faz apreciar um nascer do sol e dar um passo em frente. A vida é muito melhor quando somos capazes de dar sentido ao sofrimento, porque decidimos corrigir, rever hábitos e rotinas, que nos roubam a felicidade e a alegria de viver.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 23 Fevereiro 2016)

Mudanças e arrumações

De tempos a tempos é importante fazer aquela arrumação profunda, quase tão profunda como uma mudança de casa.

Em fim de férias, quando se prepara a mudança de estação, é usual trocar os vestuários no armário, retirando os agasalhos de lã da naftalina, e ensaiar as roupas do Inverno anterior. Não raras vezes reencontramos aquela peça de vestuário, que já no Inverno passado não vestimos, mas que talvez venha a ser necessária para o dia em que fizermos umas pinturas de parede. Entre muitas outras, ficam guardadas roupas que estão fora de moda ou fora do corpo, mas “quem sabe um dia ainda volto a caber nela”.

A sociedade de consumo em que vivemos é também uma sociedade que fomenta a acumulação. Por isso, quando se faz uma arrumação profunda, se muda de casa ou simplesmente se tem de fazer umas obras que obrigam a esvaziar os armários, deparamo-nos com o passado guardado em inutilidades.

Entre papéis amarelados, fotografias, postais do Natal de há dez anos atrás, contas pagas em escudos e aquelas mensagens escritas em bilhetinhos, tudo se guardou ao longo de anos, acumulando papéis e mais papéis, e só alguns são recordações que, reencontradas anos mais tarde, fazem recuar no tempo e na história vivida: “Já nem me lembrava disto, como o tempo passa!”

Arrumar, limpar gavetas é um óptimo exercício terapêutico, que ajuda à reorganização da própria vida quotidiana. Um exercício que obriga a fazer escolhas do que realmente é necessário e permite deitar fora “lixo” que se guarda porque, “quem sabe talvez venha a ser útil, um dia há-se se mandar arranjar!”. Mas esse dia nunca chegou e, no armário foram-se acumulando peças inúteis ou desadequadas; um candeeiro que não funciona, uma terrina rachada, que talvez servisse para vaso de flores, mas que nunca foi utilizada, um electrodoméstico que deixou de ser fabricado e que por isso não pode ser arranjado.

O mundo dos homens é feito de objectos, mas a sociedade de consumo transformou esta realidade numa insatisfação permanente. Um velho objecto dá lugar a um novo, um jornal dá lugar a outro, mas nem sempre nos desfazemos do antigo e, rapidamente, acumulamos inutilidades.

O espaço que nos rodeia é bem o reflexo do que somos, do meio cultural e sócio-económico a que pertencemos, mas sobretudo, do sentido de organização interior que nos estrutura. Se, num determinado momento ou período da vida, essa identidade é afectada, porque ocorreu uma ruptura familiar ou pelo contrário, se passou a partilhar o espaço com outra pessoa; se estamos bem com a vida ou pelo contrário a atravessar uma fase difícil, é quase certo que o espaço onde se reside, seja um quarto ou uma mansão, será bem o reflexo do estado interior de quem o habita.

Por isso, quando alguém decide arrumar, limpar e reorganizar uma gaveta, um quarto ou até a casa inteira, é certo que irá deitar muito lixo fora, muita acumulação desnecessária e, ao mesmo tempo, ao manipular esses objectos e papéis antigos, reencontrar a sua própria história passada, agora integrada no presente. 

De vez em quando é bom fazer aquela arrumação que pode ajudar a pacificar e a simplificar o quotidiano, deitando fora o desnecessário, para guardar o essencial, aquilo que realmente estrutura o percurso de vida e a identidade de cada um.

(Publicado no Açoriano Oriental, Set.2007)

 

piedade.lalanda@sapo.pt

 

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