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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

16
Jun10

Nunca baixar os braços

sentirailha

Eu hei-de conseguir! Não vou pedir ajuda, eu vou conseguir, reafirmava uma mãe sozinha, vivendo apenas com o salário mínimo de empregada doméstica e três filhos pequenos para criar.

A vida não lhe sorriu. Um dia, quando os filhos tinham todos menos de seis anos, o marido decidiu que talvez na América encontrasse uma vida melhor. Os pais haviam emigrado nos anos setenta e quase todos os seus irmãos viviam nos Estados Unidos. Talvez valesse a pena tentar a sorte!

A mulher receou mas aceitou ficar à espera de melhores dias.

Mas a sorte foi outra. Passado pouco tempo, deixou de receber notícias. O ganho que, supostamente, viria do outro lado do mar, foi apenas cem dólares que o marido enviou no primeiro mês. Depois, veio a falta de notícias e o abandono.

Confrontada com as despesas da casa, não desistiu de dar o melhor possível aos filhos. Se não havia dinheiro para os transportes, iriam a pé para a escola, mas faltar é que nem pensar. Sempre acreditou que o futuro seria melhor para eles, se conseguissem vencer a barreira do analfabetismo e da iliteracia que, infelizmente, marcou a geração dos avós e que ela própria acabou por sentir. Os pais não a deixaram estudar para além do 6º ano.

Viver com um salário mínimo, alimentar e educar três filhos pequenos não é fácil, quase parece impossível. Mas a coragem nunca lhe faltou.

Numa das visitas ao centro de saúde, a enfermeira falou-lhe do rendimento social de inserção. Porque não se candidata? Na sua situação tenho a certeza de que a vão poder ajudar. Sempre alivia o sufoco de pagar a água, a luz e as despesas básicas da casa.

Seria bom, respondeu, mas o que vão dizer as vizinhas?

Não quero ser tida por preguiçosa, malandra ou desmazelada. Eu sei cuidar dos meus filhos e faço tudo para que tenham uma vida digna. Não quero que lhes apontem o dedo na escola, por serem beneficiários do RSI. Isso nunca! Não quero ser dependente de nenhum apoio social, mesmo reconhecendo que preciso de ajuda.

Vivo com muito pouco e gostaria de poder dar melhores condições aos meus filhos, que merecem viver com dignidade e ter as mesmas oportunidades que os outros. Mas, se alguém me ajudar, não poderei dar em troca se não a certeza de que irei utilizar correctamente essa ajuda.

Trabalho durante o dia, cuido dos meus filhos à noite e limpo a casa até de madrugada. Deus sabe como luto para ter tudo em condições. Se, para ter um apoio do Estado, tenho de abandonar os meus filhos para prestar um qualquer outro serviço, sei que o não poderia fazer. Eles são pequeninos e precisam de mim, já que o pai os abandonou sem se preocupar.

Até posso requerer o rendimento social de inserção mas, não me peçam para deixar de viver com dignidade, de cabeça erguida. Quero poder ensinar os meus filhos a não terem vergonha de quem são.

A pobreza não envergonha. O que destrói as pessoas e as faz ter vergonha da sua condição é a desconfiança, o desprezo e a maledicência dos outros. É ser considerado um eterno devedor, culpado e rotulado por beneficiar de apoios.

Se, por ventura, me ajudarem, só posso assumir um compromisso, é que nunca baixarei os braços.

 (publicado no Açoriano Oriental de 14 Junho 2010)

22
Set08

Ousar vencer o comodismo

sentirailha

Em tempo pré-eleitoral, há quem se apresse a construir frases de campanha potenciando o descontentamento, como é bem visível em alguns cartazes eleitorais, que “desanimam” um pouco por todo o lado.

É fácil, demasiado fácil, apontar o dedo aos outros e criticar as suas acções, sobretudo quando quem o faz se põe de plateia, espreitando por entre as persianas; espalhando rumores, como se nada do que se passa ao seu redor pudesse ser da sua responsabilidade.

Fala-se mal do Rendimento Social de Inserção, com a ligeireza de quem não conhece todas as vidas, para não falar dos critérios, de quem dele beneficia. Até parece que o tempo do assistencialismo e da mendicidade, da qual dependiam muitas dessas famílias no passado, sobretudo crianças, fosse de louvar e representasse o sistema ideal para as ajudar. Afinal quem dava também se sentia bem consigo próprio, mesmo sabendo que isso em nada alterava a condição social de quem recebia.

Ouvem-se vozes que reclamam porque estão a pagar a sua casa ao banco, têm despesas com os filhos na escola, trabalham oito ou mais horas por dia e, não muito longe da sua casa, uma vivenda bonita de persianas brancas, vive uma família beneficiária do RSI. Têm seis filhos, todos com menos de oito anos, numa casa a precisar de reparações, com três assoalhadas. O marido, vítima de um acidente de trabalho, faz uns biscates de electricidade, sua profissão de outrora, e a mulher dá uns dias por semana em limpezas. Cuidar das seis crianças ocupa-lhe demasiado tempo. Afinal, o rendimento é apenas uma ajuda, o suficiente para que possam pagar as despesas mensais.

“Não são todos”, dirão as vozes críticas da medida. “Pois, nunca são todos!” Aliás, quando o Estado proporciona medidas de apoio, há sempre quem abuse, quem desrespeite os seus princípios. Basta lembrar o que acontece com os atestados médicos, que há quem utilize para alargar o período de férias ou de descanso, enquanto outros, realmente doentes, não faltam às suas obrigações laborais.

Apesar da justiça social que a introdução do Rendimento Mínimo permitiu, desde logo porque reduziu muitas situações de mendicidade e de exploração infantil, há sempre quem pareça não valorizar a sua condição de cidadão pagador, esforçado, com capacidade para investir na formação dos filhos. “Afinal, eu trabalho!” E depois? Será que preferia estar na condição de ter de beneficiar de uma medida de apoio social? Não será que devemos todos construir uma sociedade de pessoas activas, empenhadas? Como queremos libertar os mais carenciados se promovemos a cultura do “só se me derem”? Onde está o espírito empreendedor que pode contagiar os que desistiram de lutar e desconhecem o valor do esforço?

O importante é que aqueles que podem e sabem não baixem os braços, mas dêem exemplo, apostando na educação, mostrando profissionalismo no emprego, contribuindo para uma sociedade melhor do ponto de vista ambiental, sendo solidários em acções de voluntariado, que mais não seja no clube desportivo da sua terra.

Os críticos das medidas sociais, como o RSI, que apenas apontam o dedo, esquecem-se que, ao mesmo tempo, têm outros quatro dedos apontando para si mesmos. É preciso acreditar na mudança e viver com espírito de serviço se queremos realmente melhorar a sociedade.

(publicado no Açoriano Oriental a 22 de Setembro 2008)

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