Em vésperas de São João
Já se ouvem os ensaios das marchas, que irão sair na noite de São João. Nas ruas de Angra, as cadeiras alinham-se, para a noite do desfile.
Noite de São João! Do Alto das Covas surgem os grupos de marchantes, vestidos a rigor, entoando as letras das marchas e desenhando na calçada da Rua da Sé, coreografias, aparentemente simples, que levaram semanas a serem ensaiadas.
Estávamos nas Sanjoaninas de 2010 e, pela primeira vez, um grupo de micaelenses integra o desfile de marchas, enfrentando o público, exigente e atento, que esperava nas escadarias e na rua da Sé, em Angra. Quem viveu essa experiência, recorda, como se fosse ontem, a mistura de emoções, excitação e receio! Afinal, ninguém tinha visto, até então, os Coriscos a marchar! Tocaram os primeiros rufos da caixa e a banda filarmónica começou a entoar a música da marcha. De imediato, quase cem marchantes, alinharam-se, sorridentes, prontos para enfrentar a rua da Sé, com alegria e comoção. Para surpresa de todos, os receios tinham sido em vão. O povo nas escadarias da Sé desfez-se em vivas e aplausos e, pouco faltou para que os marchantes chorassem de emoção.
Quem diria! Afinal, nas veias dos micaelenses também corre essa emoção “sanjoanina”.
Qual é o segredo? Para quem já fez a experiência da Marcha dos Coriscos, não é difícil de entender. Este é um grupo de amigos que, todos os anos, traz outros amigos. Divertem-se, ao longo do ano, com a organização dos “jantares da Marcha”, e nos ensaios, que animam os serões de fim de semana, entre abril e junho.
Não é uma empreitada fácil, mas é vivida com grande entusiasmo.
A participação da Marcha dos Coriscos certamente que tem contribuído para unir as ilhas, uma receita anti bairrismo, cujo segredo é, somente, a amizade entre insulares, o único ingrediente que faz milagres, facilita a partilha de experiências culturais diversas, aproxima e faz descobrir a unidade nas diferenças.
Afinal, esta é a essência da “açorianidade”, uma identidade não exclusiva de quem nasceu nos Açores, mas de quem descobre o viver nas ilhas, nove parcelas diferentes, nove irmãos da mesma família, nove sensibilidades enraizadas numa emoção e história comuns.
Mais um ano sem Sanjoaninas! Fazem falta as festas, o convívio, a partilha.
Nunca, como agora, as nossas comunidades suspiram por esses momentos, sem ter de pensar no contágio da pandemia. Até o rebentar de foguetes ou o apitar dos carros, sinais de festa ou de casamento, fazem pensar no risco de contágio pandémico.
Vivemos um tempo de ambivalências, entre um calendário, que nos recorda o tempo dos santos populares, das festas de freguesia e das coroações, e o evoluir diário dos números da pandemia, que nos recorda o risco e receio de contágio.
Estamos cansados, é um facto. Mas, é preciso fazer a festa cá dentro, no interior de cada um e celebrar a alegria de estarmos vivos, orgulhosos de sermos quem somos e de mantermos o amor à terra que nos acolhe. Melhores tempos virão e o calendário nos trará de novo as festas que não pudemos viver, os abraços que não demos e a alegria que guardamos contida.
Até lá, temos de nos manter unidos na adversidade, conscientes e responsáveis, para que, no próximo ano, possamos viver melhores dias e voltar a ver o desfile das marchas em Angra ou na Vila Franca, para a alegria de todos.
Viva o São João!
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 22 junho 2021)