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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

13
Nov16

Marcas do Tempo

sentirailha

Quando me olho ao espelho, vejo rugas que me lembram que envelheci, olho os sinais que vão pintalgando a minha pele e reparo nos cabelos novos que já nascem brancos e que, aos poucos, vão tomando conta do que foi uma cabeleireira escura.

Há quem viva mal com estas alterações, sinais naturais do tempo que passa e transforma, do envelhecimento que amadurece mas também retira vigor.

Há quem nem goste de se ver ao espelho, para não perder a memória do que foi.

Mas não se olhar é não querer pensar ou recordar a vida que passou.

As marcas que ficam no rosto, no cabelo, não são as únicas marcas do tempo. A vida não é uma eterna tela branca onde todos os dias podemos recomeçar a pintura, deitando fora o que não deu certo ou que não agradou.

A vida é uma pintura inacabada. Todos os dias damos-lhe retoques, nem sempre os mais adequados, por vezes até borramos a pintura. Mas no fim, é sempre uma obra-prima, única e irrepetível, aquela que desenhamos, ora com traços fortes ora em pequenos pormenores.

As marcas da pele, as rugas, os cabelos brancos são apenas alguns dos sinais que o tempo vai deixando em nós. Ao mesmo tempo que constroem e dão sentido à imagem da tela, também desgastam e consomem energias. A pintura vai ganhando "patine" como dizem os peritos em arte.

 

Mas, sempre que olhamos a tela da vida, rugas, cabelos brancos, falta de visão ou de audição, não são as marcas do tempo mais importantes.

Há outras, essas sim fundamentais e que definem o colorido mais ou menos intenso da pintura. São experiências que não se esquecem, pessoas com quem aprendemos a viver e a ser. E por muitos anos que passem, há dias em que recordamos esses acontecimentos, esses laços que se romperam ou que tivemos de desatar.

A vida é feita dessas memórias, dessas datas.

Cada um de nós, tem um calendário próprio, onde não estão apenas os dias de aniversário, o Natal ou a Páscoa, mas muitos outros dias, que só a nós interessa recordar, porque tem significado e memória, de um outro tempo, de relações que já não temos.

Por isso, neste mês de Novembro, que a tradição religiosa cristã associa às almas, aos que já partiram, é importante olhar para essas marcas do tempo, esses dias que nas nossas vidas são especiais, e tomar consciência do quanto foram e são importantes para cada um de nós, para a pessoa que hoje somos.

Não significa isso que temos de chorar o que perdemos ou que deixou de fazer parte da nossa vida, mas antes olhar com orgulho, reconhecimento e assumir que, tal como a ruga, o cabelo branco, essas marcas fazem parte do nosso amadurecimento como pessoas.

Se não tivéssemos vivido esse tempo, se não tivéssemos podido amar essas pessoas que partiram ou de quem nos afastamos, seríamos hoje mais pobres, menos felizes.

Por isso, incorporar o tempo passado no presente é uma experiência que tranquiliza e cria espaço para sermos mais, melhores, por ventura diferentes.

Olhar a tela que pintamos e reconhecer a importância desses acontecimentos marcantes, pode ser um ato de renovação interior. Como quando arrumamos e limpamos gavetas, também é importante arrumar as nossas memórias. Limpar o que não interessa e guardar o essencial. Só assim conseguimos criar espaço interior para novas experiências.

De nada serve ficar preso ao passado e deixar de viver o presente.

As pessoas, os acontecimentos, as funções que já não temos, não devem ocupar o lugar das que agora, no dia que passa, nos impelem a dar, a ser e a construir.

As marcas do tempo são sinais de amadurecimento, são o pano de fundo da tela que todos os dias retocamos.

É bom ter esta consciência do tempo sem perder a criatividade do momento, esse toque requintado do pincel, capaz de fazer nuances nas cores, dar perspectiva aos objetos e introduzir luminosidade em recantos sombrios.

Só quem sabe olhar a tela da vida e reconhece as marcas do tempo, descobre a arte de viver.

(texto apresentado na rubrica "Sentir a ilha" integrado no programa de Graça Moniz "entre palavas" - Radio Atlantida - edição 13 Novembro).

04
Mai16

Capítulos da vida

sentirailha

A maioria de nós não é escritor ou romancista, nunca publicou uma novela e não sabe como se escreve um enredo. Mas, apesar disso, a vida de cada um de nós é uma história única, cheia de peripécias, recheada de momentos dramáticos, uns tristes, outros mais alegres. São inúmeros os acontecimentos, encontros e  desencontros que podíamos contar. Por isso, quando ouvimos a história de alguém é como se folheássemos um livro apaixonante, um romance que não queremos acabar de ler.

Mas, há um dia em que a história de alguém, que conhecíamos de perto, termina. Cala-se para sempre o texto que, sem nos darmos conta, estava na conclusão. Nessa hora sentimos que se fechou um livro, foi posto um ponto final numa narrativa, onde também nós éramos personagens.

Mesmo reconhecendo que aquela história teria de chegar ao fim, há uma enorme tristeza quando somos confrontados com a página em branco que encerra o último capítulo. Sabíamos que podia terminar, mas ficamos sempre à espera de partilhar mais umas páginas ou pelo menos ler mais algumas linhas.

A história da vida não tem o número de páginas que se quer, mas aquelas que correspondem à missão de cada um.

E é um facto, que fechar o livro da vida de alguém, com quem nos habituamos a viver e que fomos aprendendo a conhecer, é sempre encerrar um capítulo da nossa própria vida.

São etapas, capítulos que terminam que fazem recordar o passado e relembrar o essencial de tantas memórias.

Quando mais nada há para dizer, recorre-se à expressão, "É a vida!", frase feita que nos relembra que é o fim do último capítulo. Resta virar a página e recomeçar, desta vez sem todos os personagens que faziam a história, mas retomando as referencias que ficaram da sua passagem. Não esquecemos que partilhamos com eles vários dos nossos capítulos e também com eles aprendemos a ser quem somos.

Capítulos da vida são etapas que se sucedem, umas mais ou menos longas, mas sempre encadeadas num mesmo fio condutor. Aos poucos a história ganha sentido e tudo se encaixa como se tivesse sido planeado.

A vida vai fluindo e aqueles com quem nos cruzamos vão entrando e saindo nessa história, deixando marcas e memórias indeléveis.

Recordo a persistência no trabalho e o carinho pela terra, a arte de cuidar da vinha e a alquimia do vinho, um néctar que fazia da adega lá de casa um lugar de romaria.

Recordo a sinceridade no elogio e o silêncio no desagrado. Nunca passava sem a sesta a meio da jornada de trabalho e o gosto de voltar a casa, cansado depois de labutar. No final, quando as forças falharam, ficou o silêncio da aceitação, a ternura de um último olhar e a despedida tranquila de quem escolheu o momento para nos deixar.

Foi um livro que se fechou, mas não foi uma história escrita em vão. Das páginas que pude ler, ficaram lições de sabedoria, exemplo de uma história feita de renúncias e vitórias, uma vida de humildade e tenacidade de quem sabia o que queria, sem se revoltar, de quem sonhava mas era capaz de abdicar.

A vida é feita de capítulos, que nunca se repetem. E todas as páginas contam nessa história, que não conhecemos como nem quando termina.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 4 Maio 2016)

24
Mar15

Aleluia

sentirailha

A natureza parece gritar a vida na primavera. Faça frio ou chuva, a natureza não precisa de alertas, mensagens ou avisos, para fazer rebentar as novas folhas nas árvores ou florir o jacinto que ficou na terra desde o ano passado.

A natureza conhece, sente os ritmos e sabe quando renascer.

De um tronco ressequido, que o vento desbastou, nasce uma folha! Até mesmo quando ninguém se lembrou da poda, na altura certa, como manda o "borda d'água"...

Mesmo assim, a primavera acontece.

Do chão empedernido, mal regado, num canteiro esquecido do quintal, brota uma flor singela.

Aleluia, é o grito que se ouve na primavera. O que parecia morto voltou à vida, as árvores que ninguém cuidou, apesar disso, deram flor e prometem frutos para o verão.

Aleluia, há sempre uma réstia de esperança quando todos julgavam perdida aquela terra, há sempre uma semente que rebenta no seu seio, ganhando força onde parecia haver, apenas, ervas daninhas.

Eis que brota um pessegueiro, no meio de silvas e mato. Terá sido um caroço atirado em fim de tarde, uma raiz antiga? não importa. Do meio do nada, a vida floresce de novo, resiliente, quando ninguém dela cuidou, resistente, aos ventos e tempestades.

Aleluia, a vida vence sempre a destruição. A força interior, que se esconde numa terra empedernida, é maior que a camada ressequida que a cobre.

Há sempre um tempo para renovar e mesmo que ninguém a convide, a primavera volta, com a certeza de que tudo pode recomeçar.

Regressa, mas não é a mesma de outros anos. Não! Esta é nova, uma nova primavera. Outras passaram, por ventura sem que nos dessemos conta. Mas agora, está de novo aí, rebentando as folhas nas árvores secas, florindo tocas esquecidas, enterradas, rasgando a terra que nunca mais foi regada, a não ser pela chuva. Ela está aí, gritando Aleluia.

Aleluia é um grito de vida, que rompe a morte e vence a terra seca.

Há sempre uma força contida que faz recuperar o sentido, retoma esse ciclo interminável, do viver e morrer, do nascer e florir, para dar fruto e renascer.

Aleluia é essa força que os cristãos celebram na Páscoa, mas que nem todos reconhecem como renascimento. Presos ao espírito de sexta-feira, preferem desistir, porque a terra secou e dali nada pode vir de novo.

Voltados para dentro, calcam a semente que começava a rebentar, impedindo que a luz e o orvalho façam o milagre do renascimento.

Aleluia, abre os olhos, a vida acontece mesmo quando julgamos que nada mais podemos sentir. Ela surpreende, quando menos esperamos, sentados num canto da casa, agarrados ao inverno que aconchegamos à pele.

A vida, qual semente esquecida num canteiro abandonado, é essa força interior que fala baixinho e te acorda do marasmo. Olha, abre a janela, vê o sol que nasce no horizonte, pisa o chão, descalço, e sente como a terra te acolhe. É isso, a vida não nos cobra por primaveras passadas, não contabiliza o que não lhe demos ou o que esquecemos.

Aleluia, esta é uma nova primavera, um convite para renascermos, retirando ervas, pedregulhos que dificultam esse rebento que acabou de florescer no meio do teu canteiro ressequido.

Vê, tens um jacinto amarelo no jardim que brotou daquela toca esquecida, esperança contida numa semente, que deixaste abandonada a um canto.

Aleluia, acorda, a primavera está aí e, se não lhe dermos atenção, ela volta a passar, mais uma vez, sem que floresçam as sementes que insistem em rebentar nos canteiros da vida.

Aleluia!

(texto publicado no Açoriano Oriental, 24 Março 2105)

 

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