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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Um Tempo para meditar!

A nossa ilha de São Miguel ecoa vozes masculinas que rezam cantando a Avé Maria. Não é habitual ouvir os homens rezar o terço. Se entrarmos num templo católico ou mesmo durante a preparação das festas do Espírito Santo, sempre que alguém levanta um terço, são as mulheres quem primeiro responde, são as vozes femininas que se ouvem rezar.

Mas, a tradição dos romeiros, nascida do medo dos sismos e do receio que fossem os erros dos homens a sua causa, transformou esta prática numa manifestação religiosa marcadamente masculina.

Pouco importa! Estes grupos de homens, cujas vidas são sobretudo dedicadas à terra, à fábrica, ao escritório ou até mesmo são estudantes, retiram um tempo para rezar, pensar e viver de modo diferente.

A romaria é, sobretudo, uma experiência de fraternidade e de simplicidade.

Podemos não perceber ou até mesmo discordar, podemos até questionar se tal experiência terá ou não impacto na vida espiritual dos que nela participam mas, o certo é que, todos nós precisamos de fazer "pausas" na agitação do nosso quotidiano.

Abrir um parêntesis no texto corrido das nossas vidas.

Um parêntesis de silêncio, de afastamento do barulho e da agitação. E como é difícil fazer tal coisa!

Ainda muito recentemente tive a oportunidade de assistir a uma sessão sobre Mindfulness, uma prática de meditação que começa por nos fazer concentrar na nossa própria respiração, neste movimento constante de entrada e saída do ar nos nossos pulmões.

Aconselho-vos a fazer essa experiência. Fechar os olhos e concentrar-se na sua própria respiração.

Passados poucos segundos, tenho quase a certeza, a vossa mente terá disparado para tudo quanto é pensamento, imagem, ou então irá prestar atenção aos sons da rua. Ainda não acabamos de fechar os olhos e a inquietação reaparece, "se calhar não fechei a luz da sala ou deixei a panela a ferver".

A nossa mente está sempre cheia de sons, ruídos, distrações, pensamentos que nos levam para todo o lado e que, muitas vezes, nos inquietam, angustiam.

Meditar, orar, parar, só é possível se começarmos por fazer silêncio e formos capazes de olhar para nós e para a vida que cada um de nós leva, boa ou má, com serenidade, sem a preocupação de a resolver.

Fazer uma pausa na vida, como os romeiros, interromper a vida laboral ou simplesmente respirar com calma, é necessário e importante.

Mas, uma pausa, que seja de minutos, só é eficaz se a nossa mente for capaz de parar de julgar, se deixarmos de olhar a nossa vida ou a vida dos outros, opinando sobre o que está bem ou mal, porque eu devia ter feito ..., ou ela nunca mais vai conseguir....

Para podermos parar e reencontrar sentido em tudo o que nos acontece, é preciso começar por aceitar essa realidade.

Não é fácil, talvez seja a parte mais difícil de quem procura fazer o tal parêntesis na vida: aceitar essa vida, as circunstâncias, seja uma doença ou uma condição, seja uma pessoa ou uma situação.

Aceitar não é desistir de lutar e de vencer, mas perceber como fazê-lo. É ser capaz de olhar à distância os problemas e perceber como enfrentá-los melhor. É calar a voz da revolta, da raiva ou da paixão e olhar as pessoas com quem me relaciono ou as situações em que vivo, de forma mais serena e verdadeira.

É este o grande efeito da meditação.

Não é preciso usar palavras, orações feitas ou mergulhar a cabeça em leituras difíceis.

O mais importante é fazer silêncio interior.

Começar, quem sabe, como sugere a prática do mindfulness, por concentrar-se na respiração e ser capaz de sentir o momento, o agora. Não interessa o que tenho de fazer mais logo, amanhã ou nesta próxima semana.

O mais importante sou eu agora, neste momento, e ser capaz de gostar de mim, assim, como sou, esta pessoa que viveu até agora, e que tem dentro de si capacidades e limitações, mas que eu aceito.

Meditar, fazer uma romaria, é abrir um parêntesis no tempo agitado da vida, parar as rotinas, distanciar-se do barulho e concentrar-se em si próprio, para melhor se conhecer e saber lidar com essa mesma vida.

Neste tempo que antecede a primavera, e onde já se começa a ver despontar a vida, nas flores, nas árvores, nos pássaros que chilreiam pela manhã, é bom tirar um tempo para serenar e sentir. Sentir a pessoa que somos, sentir a ilha onde vivemos.

(texto lido na rubrica Sentir a Ilha, integrada no programa de Graça Moniz "Entre palavras", do dia 12 Março 2017)

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