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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Zapping, uma qualidade feminina

 

As mulheres tem uma qualidade que as diferencia de muitos homens.

Não se trata de genética ou de personalidade, mas de uma capacidade que a exigência do quotidiano acabou por desenvolver em muitas mulheres: fazer zapping entre várias tarefas, algumas realizadas quase em simultâneo.

O dia de trabalho foi longo, as crianças já estão em casa, mas o tempo para apoiar nos trabalhos de casa é curto. Então, a mesa da cozinha transforma-se num espaço multifacetado. Enquanto se prepara os legumes da sopa, ajuda-se a filha nas contas e soletram-se palavras ao filho preocupado com uma Redação sobre "a castanha". No entretanto, a água já ferve na panela e, sem perder a atenção às dúvidas que vão sendo colocadas pelos filhos, aproveita-se para encher a máquina com roupa. Este "corridinho" doméstico é interrompido quando os dois irmãos se desentendem por causa de uma borracha e a mesa da cozinha está quase a tornar-se num campo de batalha.

Segue-se o banho, a arrumação do quarto, preparar a roupa do dia seguinte e assegurar que as mochilas ficam prontas, para que ninguém se atrase, quando for para sair de casa.

Finalmente, o pai chegou e é hora de jantar. Cada um pode contar o dia, as dificuldades ou os sucessos, mas nem sempre há espaço para ficar à mesa, sem preocupações, deixando a conversa fluir. São horas de deitar as crianças, aconchegar os lençóis e contar a história do costume, para logo a seguir estender a roupa, que entretanto já está lavada.

Cansada, a mulher atira-se para o sofá, incapaz de ver a série que tanto gosta sem adormecer, enquanto o marido se instala na poltrona para ouvir as últimas do futebol.

Esta é uma caricatura, uma ficção do que acontece em algumas casas, quando as tarefas do quotidiano são protagonizadas pelas mães, mulheres de sete braços que chegam a tudo em pouco tempo, mantendo uma organização onde a simultaneidade ou a sobreposição parecem a única forma de dar conta dos recados.

No final, resta pouco para si, fica uma nesga de tempo para olhar o espelho e ainda cuidar da pele, antes de adormecer.

A divisão desigual das tarefas domésticas não é um mito. Antes fosse!

É uma realidade quotidiana, na maioria das vezes incorporada nos gestos diários de forma naturalizada, espectável. De outra maneira, "não daria certo", dizem as próprias mulheres e, acrescentam os maridos, "elas são muito melhores a fazer isso".

A questão é que este desgaste diário acaba por pesar na autoestima e tem impacto na vida pessoal e profissional de muitas destas mulheres que, incapazes de por em causa o mundo da família, sempre em primeiro plano, abdicam de oportunidades profissionais, desinvestem na carreira e vão adiando projetos pessoais.

Os tempos atuais, as novas famílias que nascem num contexto de duplo emprego, não são compatíveis com esta desigual partilha das responsabilidades domésticas, mesmo que pareça mais fácil às mulheres, porque sempre foi esse o modelo de referencia, saltitar entre obrigações, como quem faz zapping entre canais de televisão.

Não basta que haja mais mulheres no espaço público, seja no trabalho ou na política, é preciso mais participação dos homens no mundo doméstico.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 13 Novembro 2018)

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